O paradoxo da vieira: por que o molusco mais valorizado de Santa Catarina está sumindo

O paradoxo da vieira: por que o molusco mais valorizado de Santa Catarina está sumindo

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O contraste entre a alta demanda e a escassez produtiva

Santa Catarina detém uma posição de destaque no cenário nacional, movimentando cerca de R$ 3,8 bilhões anuais com a indústria do pescado. O estado concentra 61% de toda a atividade industrial da pesca no Brasil, sendo referência em produtividade. No entanto, em meio a esses números expressivos, um setor específico enfrenta um declínio preocupante: a produção de vieiras, molusco que, apesar de ser o mais caro e cobiçado do litoral catarinense, caminha para a invisibilidade produtiva.

Enquanto a ostra se consolidou como um produto de escala na maricultura local, a vieira tornou-se uma raridade. Dados do Observatório Agro Catarinense indicam que a produção, que atingiu o pico de 42 toneladas em 2021, despencou drasticamente. Atualmente, estima-se que restem menos de uma dúzia de produtores ativos em todo o estado, todos concentrados em Florianópolis, um cenário muito distante da capilaridade que a atividade já teve em municípios como Governador Celso Ramos, Porto Belo, Bombinhas e Penha.

Desafios técnicos e a fragilidade do manejo

A tecnologia para o cultivo de vieiras foi pioneira em Santa Catarina, desenvolvida ainda na década de 1990 por pesquisadores da Epagri e da UFSC. O protocolo técnico, que abrange desde a produção de larvas em laboratório até a engorda, é robusto. Contudo, a aplicação prática esbarra em uma biologia extremamente exigente. Diferente das ostras, as vieiras exigem condições ambientais muito específicas para sobreviver e prosperar.

O pesquisador Guilherme Sabino Rupp explica que a salinidade é o fator determinante. “Se a salinidade da água for abaixo de 23 partes por mil, o cultivo morre inteiro”, alerta. Além disso, o manejo é exaustivo: as sementes precisam de limpeza constante para evitar a incrustação de cracas e algas, um processo que pode levar até um ano e meio até a colheita. A taxa de mortalidade, que pode chegar a 90% em condições inadequadas, afasta novos investidores e desencoraja os pequenos produtores.

A disputa por espaço e a ascensão das macroalgas

Um dos maiores entraves para a expansão da vieira é a localização das áreas de cultivo. As zonas marinhas demarcadas pelo estado foram desenhadas majoritariamente para a produção de ostras e mexilhões, localizadas dentro de baías onde a salinidade é frequentemente afetada por chuvas. Essas áreas, muitas vezes, não oferecem o ambiente oceânico necessário para o desenvolvimento pleno da vieira.

Para complicar o cenário, o surgimento do cultivo de macroalgas gerou uma concorrência direta. Mais simples de manejar, com crescimento rápido e retorno financeiro mais previsível, as algas atraíram a atenção de produtores que antes dividiam suas estruturas com os moluscos. Rita de Cássia Rodrigues, uma das últimas maricultoras dedicadas à vieira, relata que a transição para as algas tem sido uma tendência crescente, deixando pouco espaço e tempo para a exigente produção de vieiras.

O futuro de um produto de elite

A escassez elevou o preço do produto a patamares elevados. Em julho, a dúzia de vieiras era comercializada por R$ 120, enquanto a ostra custava R$ 25. Em restaurantes especializados, como o Empório Sul Floripa, o prato pode chegar a R$ 215. Apesar da demanda garantida e do alto valor agregado, a falta de segurança na produção impede que o produto ganhe escala ou chegue a mercados distantes, como Brasília e São Paulo.

Para que a vieira deixe de ser um produto de nicho e se torne um pilar da economia do mar, especialistas apontam a necessidade de investimentos em novas áreas de cultivo com salinidade oceânica, além de uma profissionalização que justifique os custos operacionais. O portal da Epagri segue monitorando o setor, enquanto o mercado aguarda se o estado conseguirá, de fato, salvar o molusco mais nobre de suas águas.

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