Em um avanço científico que promete revolucionar o tratamento do câncer, pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, anunciaram uma descoberta notável: um composto psicodélico, a psilocibina, presente em cogumelos, pode prevenir as dores intratáveis causadas pela quimioterapia. A pesquisa, publicada na renomada revista Science nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, não apenas identificou essa capacidade protetora, mas também desvendou o complexo mecanismo bioquímico por trás dela, abrindo novas fronteiras para a aplicação de substâncias alteradoras de consciência para além da saúde mental.
O estudo, conduzido pelo Centro de Câncer MD Anderson, em Houston, detalha como a psilocibina atua na preservação do transporte celular de energia, um processo vital para a saúde dos nervos. Entre os trinta autores do artigo, destaca-se a participação do pesquisador brasileiro Frederico Omar Gleber Netto, evidenciando a colaboração internacional nesse campo de pesquisa.
A Luta Contra a Neuropatia Pós-Quimioterapia
A neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (NPIQ) é um dos efeitos adversos mais debilitantes e comuns dos tratamentos oncológicos. Ela surge como uma consequência da toxicidade dos compostos empregados para eliminar as células tumorais, afetando principalmente as extremidades do corpo, como as palmas das mãos e as plantas dos pés.
Estimativas apontam que a NPIQ afeta cerca de três quartos dos pacientes submetidos à quimioterapia. Em aproximadamente um terço desses casos, a condição evolui para dores permanentes e intensas, para as quais as soluções terapêuticas atuais são frequentemente ineficazes. Essa dor crônica compromete significativamente a qualidade de vida dos pacientes, dificultando atividades diárias e impactando seu bem-estar físico e emocional.
A Revelação Inesperada da Psilocibina
A pista para essa descoberta surpreendente surgiu há poucos anos, quando uma pesquisadora de pós-doutorado da equipe de Moran Amit, um dos autores sêniores do trabalho, observou algo incomum: camundongos com tumores que recebiam psilocibina antes da quimioterapia não desenvolviam neuropatia. Inicialmente, a observação gerou ceticismo, o que levou a uma rigorosa repetição do procedimento.
A equipe de pesquisa, liderada por Amit e Patrick M. Dougherty, testou a psilocibina com diversos agentes quimioterápicos e tipos de câncer. Em todas as instâncias, a proteção contra a neuropatia se manifestou. A análise detalhada das extremidades dos nervos dos animais, juntamente com amostras humanas obtidas de cirurgias para remoção de tumores, permitiu à equipe confirmar que o efeito protetor era mediado por estruturas celulares cruciais: as mitocôndrias.
Desvendando o Mecanismo Celular: Mitocôndrias e Microtúbulos
As mitocôndrias são conhecidas como as “usinas de energia” das células, responsáveis pela produção de ATP, a moeda energética celular. Nos neurônios, essas organelas são essenciais para sustentar o crescimento e a manutenção dos prolongamentos, chamados axônios, que formam os nervos. O transporte de mitocôndrias por essas longas distâncias, que podem chegar a um metro, é uma tarefa complexa, realizada ao longo de microtúbulos – verdadeiras “ferrovias celulares” que movem vesículas com substâncias vitais.
A quimioterapia, em sua ação de combater células tumorais, acaba por danificar essas estruturas, desmontando os microtúbulos e impedindo que as mitocôndrias cheguem às pontas dos nervos. É nesse ponto que a psilocibina atua. A substância se encaixa no receptor neuronal 5HT2a, o mesmo receptor onde o neurotransmissor serotonina se liga e que é considerado o responsável pelos efeitos subjetivos e psicodélicos. O que os pesquisadores descobriram é que a ativação do 5HT2a pela psilocibina desencadeia uma cascata de reações que induzem a construção de novos microtúbulos, restaurando assim o transporte mitocondrial e protegendo os nervos do dano quimioterápico.
Para mais informações sobre a pesquisa e seus detalhes científicos, é possível consultar o artigo original na Science.
Horizontes Terapêuticos e Próximos Passos
A relevância dessa descoberta é imensa. Como avalia Maria Maiarú, da Universidade de Reading (Reino Unido), em um comentário também publicado na Science, o estudo “amplia o horizonte terapêutico dos psicodélicos para além do tratamento de transtornos de humor e da intensa dor física e emocional e do sofrimento associados ao câncer, sugerindo um papel na proteção do sistema nervoso contra os danos colaterais das terapias anticancerígenas”. Maiarú, que não participou da pesquisa, enfatiza que o desafio agora é traduzir esses “lampejos mecanísticos em ensaios clínicos cuidadosamente planejados”.
E é exatamente isso que o grupo do MD Anderson fará. Em um mês, será lançado o teste clínico NeuroGuard, um estudo de fase 2, com o objetivo de reproduzir o efeito protetor da psilocibina em pacientes humanos com tumores. Se bem-sucedido, esse ensaio poderá abrir caminho para uma nova abordagem no manejo dos efeitos colaterais da quimioterapia, melhorando drasticamente a qualidade de vida de milhões de pessoas em tratamento contra o câncer.
Avanços como este demonstram o potencial transformador da ciência e da pesquisa em saúde. Continuar acompanhando as descobertas no campo da medicina e da biotecnologia é fundamental para entender como novas terapias podem mudar o futuro da saúde global. O Diário Global segue comprometido em trazer as informações mais relevantes e atualizadas, contextualizando os fatos e explicando seu impacto para você, nosso leitor. Fique conectado para não perder os próximos capítulos desta e de outras histórias que moldam o nosso mundo.

