Rede de propaganda pró-Rússia utiliza imagens de militares ucranianas como isca digital

Rede de propaganda pró-Rússia utiliza imagens de militares ucranianas como isca digital

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A exploração de imagens como estratégia de guerra híbrida

Uma sofisticada rede de propaganda pró-Rússia tem utilizado a imagem de mulheres integrantes ou ex-integrantes das Forças Armadas da Ucrânia para impulsionar canais de desinformação no Telegram. A estratégia, que mistura táticas de clickbait com violência psicológica, envolve a criação de anúncios falsos que prometem vídeos de abusos sexuais e execuções de prisioneiras de guerra. Na realidade, o conteúdo prometido não existe; os links servem apenas como porta de entrada para canais que disseminam narrativas favoráveis ao Kremlin e promovem o esforço de guerra russo.

O caso de Keti Leshkasheli, uma médica da Geórgia que serviu na Ucrânia, ilustra a gravidade da situação. Após retornar da linha de frente, ela descobriu que sua imagem, capturada anos antes em Avdiivka, estava sendo amplamente compartilhada em canais do Telegram acompanhada de alegações falsas de captura e estupro. “Escreveram todo tipo de horror sobre mim”, relatou Leshkasheli ao Serviço Mundial da BBC. A médica é apenas uma das mais de 20 mulheres identificadas pela investigação como vítimas dessa campanha de difamação sistemática.

Mecanismos de atração e monetização da violência

A investigação revelou a existência de mais de 6.500 anúncios com alegações de violência sexual, publicados por cerca de 1.700 canais distintos. Juntos, esses conteúdos acumularam mais de 65 milhões de visualizações, utilizando uma fórmula que combina fotos reais de militares com insultos étnicos e de gênero. A tática é desenhada para chocar o usuário, que, ao clicar na promessa de ver “provas” de crimes, acaba sendo redirecionado para comunidades digitais que operam como agregadores de notícias pró-Rússia.

Especialistas em desinformação apontam que essa prática vai além da simples manipulação de cliques. Valentyna Shapovalova, pesquisadora da área, observa que a campanha “vende a promessa de violência sexualizada como entretenimento”. Ao normalizar a violência contra o “inimigo” e humilhar as forças ucranianas, a rede contribui diretamente para os objetivos de guerra da Rússia, transformando o sofrimento humano em um produto de consumo digital que atrai milhões de seguidores.

Canais de grande alcance e o financiamento da propaganda

A análise dos dados mostra que a rede é altamente organizada. Três dos maiores canais identificados, que juntos somam milhões de inscritos, foram criados em um intervalo de apenas 72 horas no início da invasão em grande escala, em fevereiro de 2022. O canal Pryamoy Efir Novosti, por exemplo, possui hoje mais de 4 milhões de inscritos e opera como um veículo de notícias, vendendo espaços publicitários para grandes instituições financeiras, como o Alfa-Bank, mesmo sob sanções internacionais.

A lucratividade desse ecossistema é evidente. Em contato com os administradores, a reportagem constatou que um único anúncio nesses canais pode custar cerca de 500 mil rublos, aproximadamente R$ 29,9 mil. Enquanto a plataforma Telegram se mantém como o principal meio de comunicação na Rússia e uma fonte vital de informações na Ucrânia, a proliferação desses canais demonstra como a desinformação pode ser monetizada em larga escala, desafiando os limites da ética e da segurança digital em tempos de conflito armado.

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