O cenário econômico das famílias brasileiras permanece sob forte pressão, mantendo o nível de endividamento no patamar recorde de 82% em agosto de 2026. Os dados, revelados pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), evidenciam um quadro de fragilidade financeira que atravessa o segundo semestre do ano, com impactos desproporcionais sobre os estratos de menor renda.
O peso da inadimplência na base da pirâmide
Enquanto o endividamento total se manteve estável pelo segundo mês consecutivo, a inadimplência apresentou uma trajetória de alta, atingindo 29,9%. O fenômeno é particularmente preocupante entre as famílias que recebem até três salários mínimos. Neste grupo, o percentual de consumidores com contas em atraso subiu para 38,8%, e a parcela daqueles que declaram não ter condições de quitar seus débitos alcançou 18,3%.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, aponta que a fragilização financeira da base da pirâmide social é um reflexo direto da dependência do crédito para a manutenção do consumo básico. Essa dinâmica impede uma redução sustentável do endividamento, mantendo o orçamento doméstico comprometido e vulnerável a variações de juros e inflação.
Indicadores de estresse no orçamento doméstico
Além do aumento das contas vencidas, outros indicadores revelam o aperto financeiro das famílias. O tempo médio de atraso subiu para 65 dias, interrompendo uma sequência de três meses de melhoria nos prazos de pagamento. Paralelamente, 19,2% das famílias relataram comprometer mais da metade da sua renda mensal apenas com o pagamento de dívidas, o maior patamar registrado desde março.
O perfil do endividado também mudou. O grupo que se autodeclara “muito endividado” passou a representar 17,4% do total, enquanto a parcela dos “pouco endividados” recuou para 34,9%. Esse movimento sugere que, para uma fatia significativa da população, o crédito deixou de ser uma ferramenta de planejamento para se tornar uma necessidade de sobrevivência.
Perspectivas para o próximo trimestre
O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, destacou que o país chega ao último trimestre do ano com indicadores preocupantes, repetindo o cenário observado no início de 2026. A projeção da entidade é de que a inadimplência continue pressionada nos próximos meses, dado o alto comprometimento da renda e a dificuldade de alongamento das dívidas.
A estabilização das finanças das famílias depende, segundo especialistas, de uma combinação de fatores, incluindo a redução gradual dos níveis de endividamento e uma melhora na renda real disponível. Enquanto isso, o consumidor brasileiro segue navegando em um ambiente de crédito caro e restrito, com pouca margem para manobras financeiras diante de imprevistos.
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