A 18ª reunião anual do BRICS, realizada em Nova Déli, na Índia, culminou em uma resolução de caráter genérico sobre o conflito no Oriente Médio. Apesar dos apelos do líder chinês Xi Jinping para que o bloco assumisse um papel mais proeminente na busca pela paz na região, o texto final demonstrou uma abordagem cautelosa, refletindo as complexas dinâmicas e divergências internas entre os países membros.
O encontro, que ocorreu em 12 de setembro de 2026, evidenciou a dificuldade do grupo em emitir declarações mais contundentes diante de cenários geopolíticos sensíveis. A resolução, embora expressando “profunda preocupação” e pedindo “máxima contenção” dos envolvidos e uma “abordagem multilateral” pela paz, evitou mencionar diretamente os principais atores do conflito, como Estados Unidos, Israel e Irã, ou os outros treze países afetados pela guerra.
Tensão no Oriente Médio e a Cautela do BRICS
A ausência de menções explícitas aos beligerantes no documento final não foi por acaso. Um dos fatores determinantes para a formulação de um texto mais brando foi a presença de representantes do Irã e dos Emirados Árabes Unidos na mesa de discussões. Esses dois países, que se encontram em lados opostos em diversas questões regionais e foram afetados diretamente pela guerra iniciada em 28 de fevereiro pelo então presidente Donald Trump, tornaram o consenso sobre uma declaração mais específica um desafio. A existência de uma declaração unânime, mesmo que sem assinaturas individuais, foi considerada uma vitória diplomática para o anfitrião, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi.
Às margens da cúpula, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian chegou a se encontrar com o enviado emirati, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed. Esse encontro paralelo sublinha a complexidade das relações regionais e a necessidade de um equilíbrio delicado nas declarações do BRICS para acomodar os interesses de todos os seus membros e convidados.
Geopolítica e o Desafio às Políticas Ocidentais
A cúpula também foi marcada por um momento simbólico: uma fotografia de Modi, do presidente russo Vladimir Putin e de Xi Jinping de mãos dadas. A imagem remete a um encontro anterior, em setembro de 2025, na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, na China, que na época simbolizava um desafio às políticas dos Estados Unidos sob a administração Trump. Contudo, o cenário atual mostra que, embora o desejo de um contraponto global persista, cada país membro do BRICS adota hoje uma abordagem própria em relação aos americanos, pautada por seus interesses nacionais.
O texto final da cúpula também reiterou críticas anteriores do BRICS a sanções unilaterais e às guerras tarifárias, medidas que marcaram a segunda gestão Trump. Essa postura serve como um aceno à Rússia, que enfrenta sanções ocidentais devido à Guerra da Ucrânia, e reflete a preocupação geral do bloco com a coerção econômica, sem, no entanto, citar nomes específicos.
Divergências Internas e a Expansão do Bloco
O tom pouco específico da resolução é um reflexo direto das discrepâncias internas que permeiam o BRICS. O bloco, que começou em 2009 com quatro membros (Brasil, Rússia, Índia e China), expandiu-se significativamente para dez em 2026, com cinco novos integrantes adicionados em 2023 por iniciativa de Xi Jinping, que buscava elevar o status internacional da organização. No entanto, essa expansão, embora aumente a representatividade geográfica e econômica, também acentuou as divergências políticas e estratégicas.
As tensões internas ficaram mais evidentes com a falta de acordo para uma nova expansão em 2024, durante o encontro na Rússia. A reunião de 2025, sediada no Brasil, foi considerada “esvaziada”, e nesta edição indiana, o presidente brasileiro Lula não compareceu devido à campanha eleitoral. Esses fatos ilustram os desafios do BRICS em consolidar uma voz unificada e um protagonismo político global, especialmente em questões de alta sensibilidade como conflitos internacionais.
O Futuro do BRICS em um Cenário Global Complexo
A cúpula de Nova Déli reforça a imagem do BRICS como um fórum de diálogo e cooperação econômica, mas também expõe suas limitações como um bloco coeso capaz de intervir decisivamente em crises geopolíticas. A busca por uma “abordagem multilateral” e a crítica a sanções unilaterais demonstram o desejo de um mundo multipolar, onde as decisões não sejam dominadas por uma única potência ou grupo de nações. Contudo, a diversidade de interesses e a complexidade das relações internacionais exigem uma diplomacia de alto nível e um consenso que, por vezes, se mostra difícil de alcançar.
A capacidade do BRICS de transcender suas diferenças internas e se posicionar de forma mais incisiva em questões globais será crucial para determinar seu futuro e sua real influência no cenário internacional. O bloco continua sendo um ator relevante, mas seu poder de ação política ainda está em construção, moldado pelas realidades e prioridades de cada um de seus membros.
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