A memória de Elias Abrahão, falecido em 18 de setembro de 1996, permanece viva e inspiradora para aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele e testemunhar seu impacto na educação e na vida pública do Paraná. Vinte e oito anos após sua partida, seu legado de esperança, humanidade e uma gestão visionária continua a ressoar, especialmente em um cenário onde os desafios educacionais persistem e a busca por lideranças comprometidas é constante.
Elias Abrahão não era apenas um gestor público; ele era um pensador e um humanista que acreditava profundamente no poder transformador da educação e na capacidade do ser humano de construir um futuro melhor. Suas palavras e ações, recontadas por amigos e colegas como Abdala Radi Maftum e Rosi Salomão, educadores que integraram sua equipe na Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) entre 1991 e 1994, pintam o retrato de um homem cuja presença era tão marcante quanto suas ideias.
O Legado de Esperança e Humanidade de Elias Abrahão
A essência do pensamento de Elias Abrahão pode ser capturada em sua própria declaração: “Creio na esperança e, por isso, antevejo dias melhores para toda humanidade e maior fraternidade entre todos os seres humanos! Sou dos que creem e, por isso mesmo, tenho que decidir hoje fazer meu amanhã diferente, mais próximo dos meus sonhos.” Essa filosofia não era apenas retórica, mas o alicerce de sua atuação, permeando cada decisão e interação.
O educador, escritor e pastor presbiteriano Rubem Azevedo Alves, amigo de longa data de Elias, sintetizou sua personalidade com uma frase inesquecível: “Elias vinha em nossa direção – aquela enorme pessoa – e nos cativava com o sorriso que abraçava a gente”. Este sorriso, descrito como um gesto de ternura e paz, era a manifestação de uma liderança que acolhia e inspirava confiança, fundamental para a construção de equipes engajadas e para o diálogo com a sociedade.
Visão e Gestão na Secretaria de Educação do Paraná
Como Secretário de Estado da Educação do Paraná, Elias Abrahão demonstrou um estilo de gestão que se destacava pela delegação de responsabilidades e pela promoção da autonomia. Ele confiava em sua equipe, esperando em troca responsabilidade e honestidade, e incentivava que essa mesma abordagem fosse replicada em todos os níveis da estrutura educacional. Esse modelo de gestão, focado na democratização das informações e no desenvolvimento de talentos, era inovador para a época e continua sendo um ideal a ser perseguido na administração pública.
Sua visão para a educação ia além do ensino tradicional. Elias insistia que a escola deveria ser “mais do que nunca, definida como lugar de aprender a aprender, e não apenas repasse e assimilação de informações”. Para ele, o objetivo maior da educação era “levar a pessoa a ser forte e feliz, independente da profissão que exerce”. Essas ideias, registradas em seu discurso na Câmara dos Deputados em novembro de 1995 e publicadas no livro “O primado da esperança” (AgendArte Livros Editora, 2016), refletem um compromisso com a formação integral do indivíduo, um pilar essencial para qualquer sistema educacional robusto.
Desafios e Soluções: A Inovação na Chamada Escolar
A capacidade de Elias Abrahão de transformar desafios em oportunidades foi exemplificada em um episódio marcante de fevereiro de 1992. Naquele período, a imprensa noticiava a peregrinação de pais que passavam noites em filas para matricular seus filhos em escolas públicas estaduais e municipais de Curitiba, um cenário que gerava grande preocupação social.
Ao ser interpelado por jornalistas sobre a situação, Elias, com sua perspicácia característica, lamentou o sacrifício dos pais, mas acrescentou uma perspectiva otimista: “Lamento e compreendo o sacrifício dos pais, mas a fila pode ser interpretada, também, que os pais desejam matricular seus filhos em uma boa escola”. Essa resposta, que surpreendeu os repórteres, não foi uma esquiva, mas um prelúdio para uma ação concreta. Uma semana depois, um levantamento conjunto com a Secretaria Municipal de Educação de Curitiba revelou que, apesar da percepção de falta de vagas, havia uma demanda de 1.435 matrículas para mais de 4.300 vagas disponíveis.
A partir dessa constatação, e sob sua orientação, a SEED/PR iniciou o desenvolvimento do Sistema Estadual de Registro Escolar. Em um esforço colaborativo com os Núcleos Regionais de Educação e as escolas, foi implementado o processo inteligente da “Chamada Escolar”, que substituiu o antigo sistema manual e burocrático, eliminando as longas filas e as reclamações contínuas. Essa iniciativa não apenas resolveu um problema imediato, mas estabeleceu um precedente de modernização e eficiência na gestão educacional do estado, demonstrando como uma liderança visionária pode transformar a realidade.
A Perenidade de um Ideal Educacional
A trajetória de Elias Abrahão é um testemunho da importância de líderes que, além de competência técnica, possuam uma profunda sensibilidade humana e uma crença inabalável no potencial da educação. Suas ideias sobre a escola como um lugar de “aprender a aprender” e de formação para a felicidade e a força pessoal são mais relevantes do que nunca em um mundo em constante transformação, onde a adaptabilidade e o bem-estar emocional são cruciais. A capacidade de Elias de delegar, inspirar autonomia e buscar soluções inovadoras para problemas complexos oferece lições valiosas para a gestão pública contemporânea, mostrando que é possível construir um futuro mais promissor através de uma liderança pautada na esperança e na ação.
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