Em um cenário hipotético de vitória eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) planeja uma reestruturação profunda do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A proposta, que vem sendo detalhada em conversas reservadas com diplomatas e formuladores de política externa, inspira-se diretamente no modelo implementado pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante a administração de Donald Trump nos Estados Unidos.
A iniciativa é articulada por Marcos Degaut, figura próxima a Eduardo Bolsonaro em questões de política externa, que tem apresentado o projeto como uma ampla reforma das carreiras diplomáticas brasileiras. O objetivo central é alinhar a estrutura e as prioridades do Itamaraty a uma visão que enfatiza resultados quantificáveis e uma abordagem mais pragmática nas relações internacionais.
O “Marco Rubio Overhaul” como inspiração
A reforma proposta por Flávio Bolsonaro, referida por Degaut como o “Marco Rubio overhaul”, ecoa as mudanças que ocorreram no Departamento de Estado dos EUA. Sob o comando de Rubio, a diplomacia americana passou por uma significativa reestruturação que incluiu a eliminação de cerca de 1.300 vagas, o fechamento de departamentos e postos, e a imposição de metas quantitativas e qualitativas. Um dos pontos mais controversos da reforma americana foi a priorização de critérios como a fidelidade à agenda do então presidente Donald Trump, e a nomeação de um número recorde de indicados políticos para substituir diplomatas de carreira.
No contexto brasileiro, a inspiração no modelo Rubio sugere uma ruptura com a tradição do Itamaraty, conhecido por sua carreira diplomática altamente profissional e meritocrática. A proposta de Flávio Bolsonaro, conforme delineada por Degaut, visa a uma transformação que pode alterar fundamentalmente a dinâmica interna do ministério e a forma como o Brasil se posiciona no cenário global.
Foco em metas e a reestruturação da carreira diplomática
Um dos pilares da reforma planejada é a introdução de metas quantitativas para os diplomatas. Eles passariam a ter suas atividades focadas em regiões geográficas e temas específicos, com a obrigação de cumprir objetivos relacionados a exportações, investimentos e inserção comercial do Brasil. Essa abordagem contrasta com o modelo tradicional, que valoriza a formação generalista e a experiência multifacetada dos diplomatas.
Além disso, haveria uma reforma completa no sistema de promoções, atualmente apontado como fonte de insatisfação generalizada dentro do Itamaraty. A ideia é que o mérito se torne o principal critério para ascensão na carreira, em detrimento do tempo de serviço. Essa mudança, se implementada, poderia gerar um impacto significativo na motivação e na trajetória dos servidores, ao mesmo tempo em que busca maior eficiência e alinhamento com os objetivos da política externa.
Prioridades geográficas e o conceito de “superpostos”
A estratégia diplomática também seria reorientada para uma concentração em 35 países considerados prioritários para o interesse nacional, denominados G35. Este grupo incluiria as nações que compõem o G20, indicando uma preferência por atores globais de maior peso econômico e político. A intenção é evitar a dispersão de recursos em um grande número de embaixadas, optando por fortalecer algumas representações estratégicas.
Nesse sentido, o plano prevê a criação de “superpostos”, embaixadas com maior dotação orçamentária e de pessoal em regiões-chave. Na África, por exemplo, países como África do Sul e Egito poderiam abrigar essas super-embaixadas, concentrando esforços e recursos para otimizar a atuação brasileira no continente. Essa centralização busca maximizar o impacto da diplomacia brasileira em mercados e regiões consideradas vitais.
Alinhamento e pragmatismo na política externa
Apesar da inspiração americana, Degaut tem ressaltado em suas conversas que a proposta não implica um alinhamento automático aos Estados Unidos. Ele defende a manutenção dos laços econômicos com a China, mas enfatiza a necessidade de intensificar as relações com Washington, especialmente em acordos comerciais e na área de minerais críticos, visando a reduzir a dependência brasileira de Pequim para exportações de commodities.
O conceito de “realismo propositivo” é apontado como o norte da política externa, com os Emirados Árabes Unidos citados como modelo a ser seguido. A prioridade seria dada às relações do Brasil com um “Ocidente político”, focando em países do G20, Israel e nações da América Latina governadas pela direita. Essa abordagem busca equilibrar interesses econômicos e alinhamentos ideológicos, projetando uma diplomacia mais assertiva e focada em resultados tangíveis para o Brasil.
As discussões sobre a possível reforma no Itamaraty sinalizam um debate profundo sobre os rumos da política externa brasileira e o papel de sua diplomacia no cenário global. Para acompanhar os desdobramentos dessa e de outras propostas que moldarão o futuro do país, continue acessando o Diário Global, seu portal de notícias com informação relevante, atual e contextualizada.
