Criptomoedas são distribuídas em troca de apoio a Flávio Bolsonaro, aponta denúncia

Criptomoedas são distribuídas em troca de apoio a Flávio Bolsonaro, aponta denúncia

Politica

Um esquema de distribuição de criptomoedas, conhecido como “tokens”, em troca de divulgação de conteúdo que incentiva o voto em Flávio Bolsonaro, veio à tona, levantando sérias questões sobre a legislação eleitoral brasileira. A iniciativa, que envolve um site de venda de ativos digitais, oferece benefícios financeiros a usuários que compartilham mensagens e vídeos de apoio ao político, cujo número de campanha é o 22.

A prática, divulgada em um perfil de grande alcance no Instagram, o hyperskidsafrica, que se dedica a arrecadar fundos para crianças em Uganda, na África, tem gerado debate. A empresa responsável pelo token, por sua vez, nega qualquer ligação oficial com a campanha do candidato, enquanto a equipe de Flávio Bolsonaro não se manifestou sobre o assunto.

O esquema de criptomoedas e a campanha política

O site de criptomoedas lançou, em 6 de outubro de 2026, um programa que recompensa usuários com tokens B22. Para obtê-los, os participantes são incentivados a compartilhar o projeto nas redes sociais, publicando conteúdos que demonstrem sua adesão à comunidade B22. Entre os materiais a serem divulgados, estão vídeos que explicitamente promovem o voto em Flávio Bolsonaro.

A mecânica do esquema sugere que a valorização desses tokens pode gerar benefícios financeiros aos seus detentores, criando um incentivo direto para a propagação da mensagem eleitoral. Essa estratégia de engajamento, ao vincular a divulgação de conteúdo político a uma vantagem econômica, coloca em xeque os limites da propaganda eleitoral permitida pela legislação brasileira.

A controversa participação de perfil beneficente

A divulgação do esquema ganhou notoriedade através do perfil hyperskidsafrica no Instagram, que possui 12,9 milhões de seguidores e é conhecido por suas ações de caridade em Uganda. Um vídeo, que já acumulou 1,2 milhão de visualizações, mostra crianças africanas dançando com camisetas amarelas estampadas com “B22 token” e cantando “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro”.

O vídeo também inclui apelos para que as pessoas comprem e compartilhem o B22, mencionando figuras como Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal. A mensagem final das crianças no vídeo é clara: “O propósito do novo token é ajudar o Brasil. Dê uma chance, vote diferente”. O site do token afirma que parte das vendas da criptomoeda será destinada a projetos para as crianças em Uganda, o que adiciona uma camada de complexidade e sensibilidade à discussão.

Precedentes e implicações legais da prática

A estrutura do esquema foi comparada pelo advogado eleitoral Hélio Silveira, que atuou na equipe jurídica da então candidata à Prefeitura de São Paulo, Tabata Amaral, em 2024, aos controversos “campeonatos de cortes de vídeos” promovidos por Pablo Marçal. Marçal foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico devido a essa prática, que oferecia prêmios em dinheiro aos participantes que obtivessem mais visualizações em vídeos de campanha.

A Justiça Eleitoral entendeu que a concessão de vantagem econômica para a veiculação de propaganda eleitoral na internet é vedada. Em dezembro de 2025, o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) manteve a inelegibilidade de Marçal por oito anos. Segundo Silveira, o esquema do B22 Token pode configurar uma doação ilegal de pessoa jurídica (a empresa de criptomoedas) à campanha de Flávio Bolsonaro, ao usar sua estrutura para incentivar financeiramente a propaganda do voto no número 22.

O silêncio da campanha e a defesa da empresa

Diante das acusações e comparações com precedentes legais, a campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada para comentar o caso, mas não se manifestou até o momento da publicação desta reportagem. A ausência de um posicionamento oficial do candidato ou de sua equipe deixa em aberto questionamentos sobre a legalidade e a ética da prática.

Por outro lado, a empresa responsável pelo site de criptomoedas declarou não possuir ligação oficial com a campanha de Flávio Bolsonaro. Essa afirmação, no entanto, não isenta o esquema de uma análise rigorosa por parte das autoridades eleitorais, especialmente considerando os precedentes de condenação por abuso de poder econômico em situações análogas. A fiscalização sobre o uso de novas tecnologias e ativos digitais em campanhas eleitorais torna-se cada vez mais crucial para garantir a lisura do processo democrático.

Para acompanhar os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes sobre política, tecnologia e sociedade, continue acessando o Diário Global. Nosso compromisso é com a informação aprofundada e contextualizada, oferecendo a você uma leitura completa dos fatos que moldam o Brasil e o mundo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *