Dengue: Utis públicas recebem pacientes em estado mais grave que a rede particular, aponta estudo

Dengue: Utis públicas recebem pacientes em estado mais grave que a rede particular, aponta estudo

Saúde

A saúde pública brasileira enfrenta desafios contínuos, e a recente divulgação de um estudo sobre pacientes com dengue acende um alerta importante. Pesquisadores do Einstein Hospital Israelita e do IDOR (Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino) revelaram que adultos diagnosticados com dengue e internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) da rede pública chegam em um estado de saúde significativamente mais grave do que aqueles atendidos em hospitais privados. Os resultados, publicados em agosto no Journal of Critical Care, apontam para disparidades preocupantes no acesso e na qualidade do tratamento intensivo, com implicações diretas para a taxa de mortalidade e a gestão da saúde no país.

A disparidade na gravidade dos casos de dengue em UTIs

O levantamento, que analisou internações de adultos com dengue entre 2015 e 2024, trouxe à tona dados que sublinham a urgência da situação. Um dos achados mais impactantes é que, na rede pública, um em cada cinco pacientes necessitou de intubação já no primeiro dia de internação na UTI. Em contrapartida, na rede privada, essa proporção foi consideravelmente menor, atingindo apenas quatro em cada cem pacientes. Essa diferença acentuada sugere que os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) chegam às UTIs com quadros clínicos muito mais deteriorados, exigindo intervenções de suporte vital mais complexas e imediatas.

Apesar de os pacientes da rede pública serem, em média, mais jovens — com idade mediana de 50 anos, contra 54 na rede privada —, eles apresentaram mais sinais de falência de órgãos. Nos primeiros dias de tratamento intensivo, 22,4% dos internados no SUS precisaram de medicamentos vasopressores para sustentar a pressão arterial, em comparação com 5,3% na rede privada. A necessidade de hemodiálise também foi quatro vezes maior no SUS, com 4,7% dos pacientes demandando o procedimento, frente a 1,3% nos hospitais particulares. Esses indicadores reforçam a tese de que a doença progride para estágios mais severos antes que o tratamento intensivo seja iniciado na rede pública.

A hipótese da demora no acesso à terapia intensiva

Para os autores do estudo, a maior gravidade dos casos no SUS pode estar diretamente ligada a uma demora no acesso à terapia intensiva. Embora o levantamento não tenha medido especificamente o intervalo entre o início dos sintomas e a internação em UTI, a hipótese é robusta. O intensivista Luciano Azevedo, pesquisador do Einstein e principal autor do artigo, enfatiza que “o que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados”.

O cardiologista Henrique Fonseca, também pesquisador do Einstein e coautor, explica o percurso comum do paciente do SUS. Muitas vezes, ele passa por Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) antes de ser encaminhado a um hospital. Já quem possui plano de saúde tende a procurar diretamente um pronto-socorro hospitalar. Essa jornada mais longa, aliada à escassez de vagas e ao sistema de regulação do SUS, pode fazer com que o paciente aguarde em ambientes que não oferecem o suporte de terapia intensiva necessário, agravando seu quadro.

Impacto da idade e do choque circulatório na mortalidade por dengue

A pesquisa também detalhou os fatores que aumentam o risco de morte entre os pacientes com dengue em UTI. Aqueles que necessitaram de vasopressores no primeiro dia de internação, indicando um choque circulatório — condição em que a circulação sanguínea não consegue levar oxigênio e nutrientes suficientes aos órgãos —, tiveram uma taxa de mortalidade alarmante de 54,6%. Esse dado ressalta a criticidade do choque circulatório como um preditor de desfechos negativos.

A idade também se mostrou um fator determinante. No registro UTIs Brasileiras, a mortalidade foi de 3,5% entre menores de 40 anos, subindo para 6,3% na faixa etária de 41 a 65 anos e alcançando 14,4% entre os maiores de 65 anos. Os dados do Datasus, que abrangem internações do SUS, mostraram taxas ainda mais elevadas: 10% para menores de 40, 18% para 41 a 65, e impressionantes 30% para pacientes acima de 65 anos. Fonseca aponta que idosos podem ter um risco maior devido à menor reserva fisiológica, tornando-os mais vulneráveis às complicações da dengue.

O cenário da dengue no Brasil e a importância do estudo para a saúde pública

O Brasil tem enfrentado epidemias de dengue com crescente intensidade, tornando a compreensão das dinâmicas de tratamento e mortalidade essencial para a saúde pública. Este estudo, ao comparar as realidades do SUS e da rede privada, oferece um panorama crítico sobre as vulnerabilidades do sistema público e a necessidade de aprimorar os protocolos de atendimento e o acesso rápido a unidades de terapia intensiva. A análise utilizou dados robustos de duas grandes bases: o registro UTIs Brasileiras, com 32.016 internações e 2.593 mortes, e o Datasus, que registrou 11.241 internações e 2.091 mortes em hospitais ligados ao SUS.

A relevância desses achados transcende a pesquisa acadêmica, impactando diretamente as políticas de saúde e a alocação de recursos. Compreender que a demora no acesso pode ser um fator crucial para a gravidade dos casos no SUS é fundamental para o desenvolvimento de estratégias que visem à detecção precoce e ao encaminhamento ágil dos pacientes. Aprimorar a capacidade de resposta das UBS e UPAs, bem como otimizar o sistema de regulação de leitos, são passos importantes para mitigar os riscos e reduzir a mortalidade pela doença no país. Mais informações sobre a dengue e suas formas de prevenção podem ser encontradas no site oficial do Ministério da Saúde.

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