A percepção global sobre a ascensão econômica da China frequentemente a posiciona como uma potência imbatível, prestes a superar os Estados Unidos em influência e capacidade. No entanto, uma análise aprofundada do cenário chinês, como a apresentada por Bret Stephens, colunista do The New York Times, sugere uma realidade mais complexa e, paradoxalmente, mais frágil. Segundo essa perspectiva, a aparente fraqueza da China não é apenas um detalhe, mas sim um problema fundamental com implicações estratégicas e econômicas de alcance global.
Essa visão contraria o senso comum que compara os EUA a uma Grã-Bretanha em declínio imperial, distraída por conflitos secundários enquanto um rival mais forte, como a China, avança. Stephens argumenta que a história demonstra que os ativos nacionais mais produtivos são, em última instância, a liberdade política e os mercados abertos. Quanto mais livres, abertos e competitivos, maior a capacidade de inovação e crescimento sustentável de uma nação. Essa é uma lição que, segundo ele, a China ainda não assimilou plenamente em seu modelo de desenvolvimento.
O modelo chinês e seus desafios estruturais
A crença de que a China inevitavelmente ultrapassará os EUA como a maior economia do mundo é frequentemente baseada em projeções que desconsideram as fragilidades inerentes ao seu sistema. Historicamente, outras potências como a União Soviética, o Japão e a União Europeia também foram apontadas como futuras líderes econômicas, mas todas ficaram aquém das expectativas. O ponto central da análise reside na natureza da economia chinesa, fortemente direcionada pelo Estado.
O líder chinês, Xi Jinping, tem impulsionado pesados investimentos em setores estratégicos como robótica, carros elétricos, baterias de íon-lítio e equipamentos militares. Essa abordagem, que prioriza a política industrial e o direcionamento de receitas governamentais para as chamadas “tecnologias do futuro”, é vista com ceticismo. Exemplos passados, como o esforço alemão em energia renovável no início do século —que naufragou antes mesmo da invasão da Ucrânia expor a dependência do gás russo— ou a aposta em carros movidos a etanol, mostram que tais iniciativas raramente funcionam bem fora de contextos de emergência, como guerras.
Os pilares frágeis da economia chinesa
A intervenção estatal na economia chinesa frequentemente resulta em práticas negligentes. Líderes corporativos se tornam mais sintonizados com demandas políticas – como manter fábricas deficitárias abertas – do que com uma gestão rigorosa e eficiente. Além disso, a corrupção tende a se tornar endêmica quando as fronteiras entre negócios e governo se tornam irremediavelmente borradas, minando a confiança e a eficiência do mercado.
Os problemas da China são, em muitos aspectos, magnificados em comparação com desafios enfrentados por outras grandes economias. Até o ano passado, empresas estatais ou de “propriedade mista” representavam cerca de 60% das maiores empresas do país. O estouro da bolha imobiliária chinesa, que gerou o fenômeno das “cidades fantasmas”, esgotou as economias de milhões de cidadãos e desencadeou uma crise de financiamento municipal de proporções alarmantes. O setor corporativo chinês também está cada vez mais “zumbificado”, com empresas dependentes de crédito barato para cobrir prejuízos, conforme reportado pela revista Fortune, indicando que a dívida empresarial dobrou desde 2019, enquanto as receitas cresceram apenas 30%.
Este cenário econômico complexo repousa sobre uma fundação instável, agravada por uma força de trabalho envelhecida e em declínio. A combinação de intervenção estatal excessiva, fragilidades financeiras e desafios demográficos sugere que a China, embora poderosa em muitos aspectos, pode estar enfrentando um período de vulnerabilidade econômica que, se não for adequadamente gerido, pode ter repercussões significativas não apenas para o país, mas para todo o sistema global de comércio e geopolítica. A maneira como Pequim navegará por essas águas turbulentas será crucial para o futuro da economia mundial.
Para aprofundar-se nas complexidades da economia global e entender como os desafios da China podem impactar o Brasil e o mundo, continue acompanhando as análises e reportagens do Diário Global. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada para que você esteja sempre bem informado sobre os temas que moldam nosso futuro.
