Gilberto Kassab olhando para Ronaldo Caiado

PSD de Kassab adota estratégia camaleônica e alianças diversas nas eleições estaduais

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O Partido Social Democrático (PSD), sob a liderança de Gilberto Kassab, tem se destacado no cenário político brasileiro por sua notável flexibilidade ideológica e pragmatismo nas alianças eleitorais. Em um movimento que desafia as classificações tradicionais de direita, centro ou esquerda, a sigla demonstra uma capacidade ímpar de adaptar-se aos contextos estaduais, buscando maximizar sua influência e presença em governos e legislativos.

Essa estratégia, que muitos analistas descrevem como “camaleônica”, permite ao PSD flertar com o conservadorismo em estados como Santa Catarina, ao mesmo tempo em que consolida parcerias com o Partido dos Trabalhadores (PT) no Nordeste. Tal dualidade não é apenas uma característica isolada, mas sim um pilar fundamental da atuação do partido, que se posiciona como um ator central na política nacional, independentemente das colorações ideológicas de seus parceiros.

A flexibilidade ideológica do PSD em diferentes palcos estaduais

A abordagem do PSD é exemplificada de forma clara nas eleições estaduais. Em Santa Catarina, um dos estados mais conservadores do Brasil, o pré-candidato ao governo João Rodrigues (PSD-SC) se autodeclara “direita raiz e conservadora”, buscando atrair o eleitorado de Jair Bolsonaro mesmo diante do apoio do ex-presidente à reeleição de Jorginho Mello (PL-SC). Rodrigues tenta descolar de Mello o rótulo de “extremista” enquanto mantém um diálogo com a base conservadora.

Paralelamente, no Nordeste, a sigla de Kassab inverte a lógica e se alinha diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD-SE) conta com o apoio do senador petista Rogério Carvalho para sua chapa de reeleição, um acordo costurado com a participação direta de Lula. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD-PE) disputa o apoio petista com João Campos (PSB-PE), evidenciando a importância dos votos da militância do PT no estado natal do presidente.

Até mesmo no Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD-RJ), conhecido por sua ligação histórica com Lula, chegou a ensaiar uma aproximação com o PL de Bolsonaro para as eleições, embora o partido tenha recusado o aceno. Essas movimentações demonstram a ausência de uma agenda identitária rígida, priorizando a ocupação de espaços de poder.

Pragmatismo político e o papel do Centrão

Cientistas políticos como Priscila Lapa, de Pernambuco, apontam que o PSD se move por questões de cunho pragmático, visando ampliar sua capacidade de ocupar espaços de poder, seja no Legislativo ou na composição de governos. Essa característica não é exclusiva do PSD, mas uma marca histórica do Centrão, grupo de partidos que historicamente adota uma postura mais flexível em relação a ideologias para se adaptar ao governo de turno ou às demandas locais.

Daniel Pinheiro, pesquisador em Educação e Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), corrobora essa visão, destacando que a clareza programática se tornou uma característica de partidos menores, enquanto os maiores, como o PSD, tendem a mudar de posições ideológicas conforme o momento político. A ausência de uma pressão eleitoral significativa sobre a coerência ideológica contribui para o enfraquecimento da ideia de partidos estritamente ligados a ideologias. Para mais análises sobre o tema, consulte o Centro de Estudos Políticos.

A arquitetura de poder de Gilberto Kassab

No epicentro dessa estratégia está Gilberto Kassab, fundador do PSD em 2011, que definiu o partido como “nem de esquerda, nem de direita e nem de centro”. Sua liderança é crucial para a capacidade do PSD de abarcar lideranças com pautas menos ideológicas, permitindo uma maior flexibilidade na formação de alianças. Kassab, que até março deste ano atuou como um dos principais secretários do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), mantém uma postura ambígua, criticando publicamente o governo Lula, apesar de o PSD ocupar dois ministérios (Minas e Energia e Agricultura e Pecuária).

Essa habilidade de transitar por diversos espectros políticos é o que, segundo Daniel Pinheiro, permitiu ao PSD fazer alianças consideradas “quase impossíveis”. Enquanto outros partidos se posicionaram mais à direita, o PSD soube ocupar o centro e fincar bandeiras em ambos os lados, refletindo uma lógica de dominação das legendas de centro, que sobrevivem pela articulação e movimento flexível.

O PSD é o partido com o maior número de prefeituras no país, cerca de 890 após as eleições municipais de 2024, e governa seis estados (Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Sergipe e Rondônia), além de três capitais (Rio de Janeiro, Curitiba e São Luís). O partido também possui uma bancada expressiva no Congresso Nacional, com 13 senadores e 49 deputados federais, o que demonstra a eficácia de sua estratégia de capilaridade política.

O eleitor e as contradições partidárias

A grande questão é se o eleitorado percebe essa ambiguidade e o quanto ela influencia o voto. Para Priscila Lapa, as contradições podem ser notadas em disputas acirradas, mas raramente são decisivas. O voto personalista ainda prevalece no Brasil, com a escolha baseada na performance individual e na identificação afetiva, e não necessariamente na coerência ideológica do partido. A baixa confiança dos brasileiros nas instituições partidárias reforça essa tendência.

Daniel Pinheiro complementa que o desgaste eleitoral causado por essas contradições é praticamente inexistente ou apenas momentâneo. Ele atribui isso à relação distante do brasileiro com a política partidária, onde há poucos espaços públicos para a discussão de problemas reais que poderiam ser resolvidos por linhas ideológicas claras. Assim, a estratégia de Kassab e do PSD, embora complexa, parece estar alinhada com a dinâmica do eleitorado brasileiro.

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