A economia iraniana se encontra em um cenário desafiador, com projeções indicando que levará anos para se reerguer dos impactos de conflitos e um regime de sanções prolongado. Um memorando de entendimento recente entre os Estados Unidos e o Irã, datado de 19 de junho de 2026, oferece um vislumbre de esperança, mas a complexidade da situação exige cautela e um esforço monumental para a reconstrução.
O acordo preliminar estabelece um prazo de 60 dias para negociações sobre um pacto final, com a promessa de incentivos substanciais, que podem chegar a US$ 300 bilhões em investimentos, caso o Irã demonstre cooperação. Contudo, a quantia exata que o país receberá permanece um ponto de discórdia potencial, e o caminho para a estabilidade econômica é permeado por obstáculos significativos.
Desafios na Recuperação da Economia Iraniana
Para a população iraniana, o sofrimento tem sido palpável e severo. Dados recentes revelam uma inflação anual de 84% no mês passado, mais que o dobro da taxa registrada em janeiro. A situação é ainda mais crítica no setor alimentício, onde a inflação atingiu alarmantes 131%. O bloqueio imposto também estrangulou as importações, resultando em cerca de 3.000 contêineres retidos em portos paquistaneses desde meados de abril e uma queda de 40% nos embarques de grãos para Bandar Imam Khomeini, o principal centro agrícola do país.
A escassez e os preços exorbitantes forçam iranianos de baixa renda a adquirir itens básicos como carne e pão em parcelas. A crise do emprego é igualmente grave, com o vice-ministro do Trabalho, Gholam-Hossein Mohammadi, estimando que até 2 milhões de pessoas perderam seus postos de trabalho, o que representa cerca de 7% da força de trabalho. A desesperança é evidenciada pelo jornal iraniano Donya-e Eqtesad, que relatou em 18 de maio um aumento para 360 no número de candidaturas para uma única vaga em um site de empregos, o JobVision.
Impacto dos Conflitos e Sanções na Infraestrutura
O presidente Masoud Pezeshkian reconheceu a gravidade da situação em maio, afirmando a empresários em Teerã que “o principal campo de confronto hoje é a economia e a subsistência das pessoas”. Parte dos danos econômicos foi autoinfligida, como o corte do acesso à internet global durante os protestos de janeiro, restabelecido apenas em maio, e as demissões de 3% dos funcionários da Digikala, a maior varejista online do Irã.
No entanto, a maior parte da devastação é atribuída a ataques americanos e israelenses, que atingiram fábricas, refinarias, siderúrgicas e, mais recentemente, o maior complexo petroquímico do Irã. Desde o primeiro ataque em abril, o Irã suspendeu as exportações petroquímicas, que representam um terço de suas exportações não petrolíferas. A consultoria Rystad Energy estima que apenas a reparação das instalações de energia pode custar até US$ 19 bilhões. A Foundation for the Defence of Democracies, um think tank americano, calcula a conta total em aproximadamente US$ 144 bilhões, o equivalente a cerca de metade do PIB iraniano.
Perspectivas de Alívio e Obstáculos Políticos
Com a assinatura do memorando de entendimento, espera-se que os EUA suspendam o bloqueio e ofereçam alívio nas sanções. O fim do bloqueio é crucial, pois ele visava privar a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), a elite militar do país, de sua principal fonte de recursos. A Vortexa, empresa de rastreamento de navios, informou que as exportações iranianas em maio caíram para 209.000 barris por dia, uma redução de 84% em relação a abril. Antes do acordo, o armazenamento de petróleo bruto do Irã estava 83% cheio, segundo a Kpler. Embora os carregamentos de navios-tanque na ilha de Kharg, principal centro de exportação, tenham diminuído, a expectativa é que sejam retomados em breve.
O memorando também pode abrir uma exceção nas sanções sobre os embarques de petróleo iraniano, e o regime demonstra interesse em cobrar pedágios de navios que transitam pelo estreito. A maior recompensa seria o pacote de investimentos de US$ 300 bilhões, uma soma equivalente ao PIB anual do Irã, para reconstruir a economia. J.D. Vance, vice-presidente de Trump, mencionou que essa seria uma possibilidade se as negociações avançassem. O rial, que havia perdido um quarto de seu valor não oficial este ano, já se recuperou desde o anúncio do memorando.
No entanto, o cenário político apresenta desafios. Donald Trump negou em 17 de junho que os EUA investiriam no plano e que teria pedido aos países do Golfo para criar um fundo. A proposta de Trump, de permitir o fluxo de dinheiro para resolver os problemas, exigiria o desmantelamento das sanções que há muito desestimulam investidores estrangeiros. Tal medida enfrentaria forte oposição de políticos da ala mais conservadora dos EUA, como o senador republicano Lindsey Graham, que comparou a ideia a um “Plano Marshall para a Alemanha com o nazismo ainda no comando”.
A cautela é fundamental, pois grande parte da indústria iraniana é de propriedade da IRGC. Investimentos em larga escala significariam suspender sanções sobre a facção mais linha-dura do regime, uma medida que já gerou críticas republicanas ao acordo nuclear de Barack Obama. Embora o regime possa se beneficiar do acordo, as necessidades da população empobrecida podem acabar em segundo plano.
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Este artigo é baseado em informações originalmente publicadas pelo The Economist, traduzido por Sidney Fontinele e publicado sob licença.
