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Geração Z e o labirinto digital: ‘Backrooms’ expõe medos sobre trabalho e inteligência artificial

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O filme Backrooms emergiu rapidamente como um fenômeno cultural, especialmente entre a Geração Z, ao traduzir para as telas um tipo particular de ansiedade que ressoa profundamente com as experiências de jovens adultos na era digital. Lançado em 2026, o longa-metragem não é apenas um filme de horror, mas um espelho das preocupações contemporâneas com o futuro do trabalho, a inteligência artificial e a vida mediada por telas, capturando o zeitgeist de uma geração que cresceu imersa em realidades virtuais e espaços liminares.

O sucesso estrondoso, com US$ 81 milhões arrecadados apenas nos Estados Unidos em seu fim de semana de estreia e um público majoritariamente jovem —86% com menos de 35 anos e 44% com menos de 21, segundo a PostTrak—, sublinha a conexão que a narrativa estabelece com essa demografia. A premissa, que segue um arquiteto frustrado que se torna vendedor de móveis e acidentalmente descobre uma dimensão estranha de quartos quase vazios, evoca um pesadelo coletivo de estar preso em uma realidade alternativa infinita e mutante.

O terror geracional: espelho de uma era digital

A história do cinema de horror frequentemente se entrelaça com os medos mais profundos de cada época. Nos anos 1950, filmes como Invasão dos Usurpadores de Corpos refletiam a paranoia da Guerra Fria. A desconfiança nas instituições, gerada pela Guerra do Vietnã, permeou clássicos dos anos 1970 como O Massacre da Serra Elétrica e O Exorcista. Já os slasher movies dos anos 1980 —populares entre a Geração X de crianças deixadas sozinhas em casa— frequentemente abordavam a ausência parental ou figuras monstruosas. E o torture porn dos anos 2000, como a franquia Jogos Mortais, pode ser interpretado no contexto de eventos como Guantánamo e o escândalo de Abu Ghraib.

Backrooms se insere nessa tradição, mas com uma roupagem distintamente moderna. O labirinto de escritórios vazios e repetitivos que o protagonista Clark encontra sugere uma espécie de algoritmo enlouquecido, uma visão distorcida e “gamificada” do mundo. Para a Geração Z, que passou anos da pandemia de Covid-19 isolada em casa, experimentando o mundo exterior através de espessas camadas de mediação digital, a ideia de estar preso em um labirinto em proliferação é particularmente assustadora. O filme mistura as fronteiras entre casa e trabalho, um dilema que muitos criadores de conteúdo online e trabalhadores remotos enfrentam diariamente.

Da internet para as telas: a ascensão de Kane Parsons

A gênese de Backrooms é tão intrinsecamente ligada à cultura da internet quanto seu conteúdo. O diretor Kane Parsons, com apenas 20 anos, é um verdadeiro “filho da internet”, cujo estilo foi forjado por mídias digitais e videogames como Minecraft e Portal 2. Em 2022, Parsons, então anônimo, transformou um meme inquietante de um escritório dos anos 2000 em um curta-metragem usando software gráfico comum.

The Backrooms (Found Footage) viralizou, acumulando mais de 80 milhões de visualizações, e chamou a atenção da A24, produtora conhecida por seu cinema independente e refinado. A A24 contratou Parsons para dirigir a versão longa-metragem, marcando a estreia de uma obsessão da Geração Z nas grandes telas: o fascínio por imagens da virada do milênio, como shoppings abandonados, que evocam uma sensação de nostalgia e estranheza. A própria trajetória de Parsons, de criador de conteúdo anônimo a diretor de Hollywood, espelha a dinâmica do marketing e da produção de conteúdo na era digital. Como observou James Francis, professor de inglês especializado em filmes de horror, a ascensão de Parsons está intrinsecamente ligada ao marketing do próprio filme.

Labirintos modernos: inteligência artificial, trabalho e a vida online

O debate em torno de Backrooms frequentemente destaca sua sensibilidade perturbadora e sua novidade. Adam Lowenstein, diretor do Centro de Estudos de Horror da Universidade de Pittsburgh, observa que filmes de horror sempre “canalizam ansiedades e traumas específicos daquela era”. No caso de Backrooms, as ansiedades são multifacetadas e profundamente contemporâneas.

Uma das leituras mais proeminentes é a de que o filme comenta sobre a inteligência artificial (IA) e a proliferação de conteúdo gerado online. Sydney Andrews, designer de produção de 23 anos, expressa um sentimento comum: “Nossa geração está muito assustada com a IA.” O próprio Parsons, embora afirme que a IA é “genuinamente prejudicial” e que a faria “desaparecer para sempre” se pudesse, inspirou-se em conceitos de videogames, como o “clipping” —gíria gamer para atravessar uma parede sólida— para a entrada nos backrooms.

Além da IA, o filme aborda a perspectiva do trabalho para a Geração Z, que Lowenstein descreve como “muito desconcertante, perturbadora e assustadora”. A criação de conteúdo, muitas vezes a única perspectiva de emprego que essa geração consegue imaginar, é retratada como um campo darwiniano que exige dedicação total. No filme, Clark dorme no chão de sua loja, e os backrooms, embora lembrem escritórios, estão repletos de decoração de casa e objetos pessoais, simbolizando a fusão inescapável entre vida pessoal e profissional. Seus jovens funcionários —retratados como incompetentes e sem sonhos— são oferecidos trabalhos por hora, primeiro como produtores de conteúdo, depois como assistentes em sua missão de explorar os backrooms, uma crítica sutil à precarização e à falta de propósito que permeia o mercado de trabalho para muitos jovens. Acesse mais informações sobre o tema.

Backrooms não é apenas um filme; é um sintoma cultural, uma janela para os medos e as realidades de uma geração que navega por um mundo cada vez mais digitalizado, incerto e sem fronteiras claras entre o real e o virtual.

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