Jair Coll/Reuters

Eleições na Colômbia: símbolos do futebol viram campo de batalha política em segundo turno

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A Colômbia vive um segundo turno eleitoral marcado por uma polarização intensa, onde até mesmo os símbolos nacionais, tradicionalmente unificadores, se transformaram em palco de disputa política. Em meio a um clima que muitos comparam a uma final de campeonato, eleitores têm usado camisas da seleção de futebol e bandeiras do país para expressar seu apoio a candidatos, transformando o ato de votar em uma declaração de identidade política.

Este cenário reflete a profundidade da divisão no país, que elegeu seu primeiro presidente de esquerda apenas em 2022. A atual corrida presidencial opõe o ultradireitista Abelardo de la Espriella e o senador Iván Cepeda, de esquerda, em uma disputa que tem mobilizado as bases de ambos os lados de maneira inédita, com repercussões que vão além das urnas.

A disputa pelos símbolos nacionais em meio à campanha

A apropriação dos símbolos nacionais começou dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais. O candidato ultradireitista Abelardo de la Espriella foi um dos primeiros a incentivar seus apoiadores a comparecerem às urnas vestindo a camisa da seleção colombiana de futebol. A iniciativa visava associar a imagem do candidato a um sentimento de patriotismo e unidade nacional, frequentemente evocado pelo esporte.

No entanto, a estratégia não tardou a gerar uma reação. No segundo turno, a identificação de um eleitor de Espriella pela camisa da seleção tornou-se mais complexa. No sudoeste de Bogotá, por exemplo, dezenas de apoiadores de Iván Cepeda também se reuniram em frente ao local de votação do senador, exibindo camisas e bonés da seleção ou enrolados na bandeira da Colômbia, demonstrando que os símbolos não pertenciam a apenas um espectro político.

Personalização e contra-narrativas nos locais de votação

A resposta dos apoiadores de Cepeda foi criativa e estratégica. Para evitar a confusão com a extrema direita e ressignificar os símbolos, muitos personalizaram suas vestimentas. A médica Paula Mora, de 34 anos, exemplificou essa tendência ao usar uma camiseta branca com as cores da bandeira e uma ilustração de Jorge Eliécer Gaitán, um proeminente líder político colombiano assassinado em 1948. A morte de Gaitán desencadeou o “Bogotazo”, uma onda de protestos que marcou o início de um período de intensa violência política no país.

Essa tática, que incluiu sessões de serigrafia para estampar figuras de esquerda nas camisas da seleção, mostrou-se mais eficaz do que a tentativa do próprio senador Cepeda de questionar a Federação Colombiana de Futebol sobre o uso da camisa por seu adversário. A campanha pró-Cepeda também distribuiu materiais de campanha inovadores, como santinhos no formato de figurinhas de álbum e panfletos que se transformavam em tabelas para apostas da Copa, com a mensagem: “No segundo turno viramos”.

Clima de “Fla-Flu” e temores de violência

O ambiente eleitoral na Colômbia, especialmente no segundo turno, tem sido comparado a um “Fla-Flu” – uma referência à intensa rivalidade de um clássico do futebol brasileiro. Esse nível de polarização é considerado inédito no país, que, como mencionado, só elegeu seu primeiro presidente de esquerda recentemente. A tensão era palpável nos locais de votação, com gritos de apoio a Cepeda sendo interrompidos por provocações, como o famoso bordão “Viva la libertad, carajo!” do presidente argentino Javier Milei, uma clara inspiração para Abelardo de la Espriella e outros líderes da direita regional.

A acirrada disputa e o histórico de violência política na Colômbia geraram preocupações significativas. Comerciantes em Bogotá, por exemplo, temiam a eclosão de distúrbios após a divulgação dos resultados, cobrindo lojas e bancos com tapumes como medida preventiva. Essa apreensão sublinha a gravidade do momento político e a necessidade de um processo eleitoral transparente e pacífico.

Desdobramentos e a relevância da escolha

Analistas e institutos de pesquisa indicavam que uma virada de Cepeda, que ficou atrás de Espriella no primeiro turno, seria uma surpresa. O ultradireitista tem se mantido consistentemente à frente nas pesquisas, o que intensifica ainda mais a expectativa e a tensão em torno do resultado final. A eleição não é apenas uma escolha de liderança, mas um referendo sobre os rumos ideológicos e sociais de um país que busca consolidar sua democracia em meio a desafios históricos e contemporâneos.

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