A capital da Venezuela, Caracas, foi abalada por uma série de terremotos de grande magnitude, revelando a precariedade de sua infraestrutura e a vulnerabilidade de suas construções, um cenário agravado por mais de uma década de crise econômica. Os tremores, que atingiram magnitudes de 7,2 e 7,5, deixaram um rastro de destruição e um número crescente de vítimas, colocando em evidência os desafios enfrentados pela população em uma das cidades mais antigas da América do Sul.
Até a noite da última quinta-feira (25), 24 horas após os abalos sísmicos, as autoridades do regime liderado pela líder interina Delcy Rodríguez confirmaram 235 mortos. No entanto, a estimativa real de vítimas pode ser muito maior. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) projeta, com base em análises técnicas, que há uma probabilidade de 42% de que o número total de óbitos possa variar entre 10 mil e 100 mil, um dado alarmante que sublinha a gravidade da situação.
A Crise Econômica e a Vulnerabilidade Estrutural
A fragilidade das edificações em Caracas não é um fenômeno recente, mas foi acentuada pela prolongada crise econômica que assola a Venezuela. O USGS aponta que a população da região reside predominantemente em estruturas suscetíveis a tremores sísmicos, como alvenaria de tijolos sem reforço e blocos de adobe, embora existam construções mais resistentes. Essa realidade é um reflexo direto da deterioração das condições de vida e da capacidade de investimento em infraestrutura segura.
Dados da Pesquisa Nacional de Condições de Vida (Encovi), realizada pela Universidade Católica Andrés Bello, indicam que em maio de 2025, 55% dos venezuelanos viviam em situação de pobreza multidimensional. Este índice considera não apenas a renda, mas também fatores como emprego, moradia e acesso a serviços básicos. A falta de recursos impede a manutenção adequada e a construção de moradias seguras, empurrando grande parte da população para habitações informais e de alto risco.
O Legado de Construções Antigas e Normas Sísmicas
A urbanização de Caracas, com seu histórico de ocupação e crescimento, resultou em uma cidade com um grande número de estruturas antigas. Valentina Páez Hernández, mestre em engenharia sísmica pela Universidade Central de Venezuela (UCV), destaca que aproximadamente 80% dos edifícios foram construídos antes de 1982, ano em que foi elaborada a principal norma para construções resistentes a terremotos no país. Essa defasagem nas regulamentações de engenharia representa um risco significativo para a segurança dos moradores.
Estudos prévios já alertavam para o perigo iminente. Uma pesquisa de 2014, publicada na Revista da Faculdade de Engenharia da UCV, analisou os riscos em Guarenas e Guatire, áreas de expansão metropolitana de Caracas. O estudo estimou que um terremoto de magnitude moderada a grande, ocorrido de madrugada, poderia causar a morte de quase 20 mil pessoas. Os autores revelaram que apenas 40% da população desses municípios vivia em edifícios formais, e que a maioria das construções, tanto formais quanto informais, apresentava alta vulnerabilidade sísmica.
Desafios Adicionais: Energia e Resgate
Além da fragilidade estrutural, a Venezuela enfrenta interrupções constantes na rede elétrica, um problema crônico que se agrava em situações de emergência. A falta de energia elétrica pode dificultar imensamente as operações de busca e resgate, especialmente em cenários de desabamentos noturnos, comprometendo a capacidade de localizar e socorrer sobreviventes presos sob os escombros. A combinação de construções precárias e a ausência de serviços essenciais cria um cenário complexo e desafiador para as equipes de emergência e para a população afetada.
A tragédia em Caracas serve como um doloroso lembrete da interconexão entre crises econômicas, desenvolvimento urbano e segurança sísmica. A recuperação será longa e exigirá um esforço coordenado para reconstruir não apenas edifícios, mas também a confiança e a resiliência de uma população já exaurida. Para mais informações sobre a situação na Venezuela e outros acontecimentos globais, continue acompanhando o Diário Global, seu portal de notícias com informação relevante, atual e contextualizada.
