14.ago.97/Folhapress

Caso Cobrasma: o diálogo de Luís Eulálio Vidigal com a imprensa em meio à crise de 1986

Politica

O cenário econômico brasileiro de 1986, marcado pelo recém-implementado Plano Cruzado e seu congelamento de preços, foi o pano de fundo para um dos episódios mais emblemáticos da relação entre o empresariado e a imprensa: a crise da Cobrasma. No centro da controvérsia estava Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, então uma figura proeminente como presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e dirigente da Companhia Brasileira de Material Ferroviário (Cobrasma).

A história, revisitada pelo colunista Frederico Vasconcelos, editor do Painel Econômico (atual Painel S.A.) da Folha de S.Paulo na época, revela como a transparência e o diálogo, mesmo em momentos de grande adversidade, podem moldar a narrativa pública de uma crise. O caso Cobrasma não apenas expôs as fragilidades do ambiente econômico daquele período, mas também testou os limites da responsabilidade corporativa e da fiscalização jornalística.

A reviravolta nas projeções da Cobrasma

Em 1986, a Cobrasma, uma das gigantes do setor de material ferroviário, havia feito a maior emissão de ações de sua história, colocando à venda 25,5 bilhões de papéis. As projeções eram otimistas, baseadas na expectativa de correção de preços de seus produtos, supostamente sinalizadas por “fontes autorizadas do governo”. O governo, aliás, era o principal cliente da empresa, o que reforçava a confiança do mercado.

No entanto, a realidade se mostrou diferente. Em uma pequena nota, publicada sem destaque na Gazeta Mercantil no último dia do ano, a Cobrasma confirmou o que o mercado já temia. A empresa alterou drasticamente sua estimativa de resultado para o exercício de 1986: de um lucro projetado de aproximadamente R$ 50,4 milhões para um prejuízo equivalente a cerca de R$ 66 milhões (valores atualizados). Essa mudança repentina gerou um impacto devastador para os investidores.

Impacto do Plano Cruzado e a frustração dos investidores

O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, buscava combater a hiperinflação por meio de medidas como o congelamento de preços. Embora inicialmente bem-sucedido em conter a escalada inflacionária, o plano gerou distorções significativas na economia, afetando profundamente empresas que dependiam de reajustes de preços para manter suas margens. A Cobrasma foi uma delas, com suas projeções otimistas se desfazendo diante da rigidez do congelamento.

A emissão de ações, que contava com a garantia firme de bancos como Bradesco, Crefisul e BCN, transformou-se em um pesadelo financeiro. Além dos três grandes bancos, 124 instituições financeiras e milhares de pequenos e médios investidores perderam com a operação. Um leitor chegou a alertar o colunista Frederico Vasconcelos que, a cada dia, o valor dos papéis da Cobrasma diminuía, evidenciando a gravidade da situação antes mesmo da nota oficial.

O diálogo entre Vidigal e a imprensa

Frederico Vasconcelos, ao identificar a nota da Cobrasma, buscou esclarecimentos. Após conversar com um técnico da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e com o diretor financeiro da Cobrasma, Ércio Pinto Tavares – que admitiu a frustração dos aplicadores, mas defendeu o patrimônio e a tradição da empresa –, o jornalista tentou contato com Luís Eulálio Vidigal. Inicialmente sem sucesso, Vasconcelos enviou um ofício à Cobrasma, informando sobre uma nova reportagem.

Meia hora depois, Vidigal telefonou ao colunista, propondo um acordo: que Vasconcelos o procurasse diretamente antes de publicar fatos sobre a empresa, fornecendo seus telefones pessoais e o de sua fazenda. Esse episódio demonstra a postura de Vidigal em manter um canal de comunicação aberto com a imprensa, mesmo em um momento de crise aguda, buscando gerenciar a narrativa e oferecer sua versão dos fatos.

Desdobramentos legais e a concordata

A crise da Cobrasma teve sérias repercussões legais. Em 1987, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, um órgão paritário, derrubou multas milionárias aplicadas pela CVM à empresa. Vidigal chegou a ser denunciado por crime contra o sistema financeiro nacional, mas o então juiz federal João Carlos da Rocha Mattos rejeitou a denúncia, considerando-a inepta por não incluir os dirigentes dos bancos envolvidos.

Curiosamente, o procurador da República Antônio Augusto César, que perdeu o prazo para recorrer da decisão favorável a Vidigal, e o próprio juiz Rocha Mattos seriam investigados anos depois, em 2003, na Operação Anaconda, que desbaratou uma quadrilha que negociava decisões na Justiça Federal. Rocha Mattos foi preso, adicionando uma camada complexa e irônica aos desdobramentos do caso Cobrasma. Em março de 1991, a Cobrasma entraria com pedido de concordata, alegando ter sido “engolida, atropelada pelo caos da economia nacional” e atribuindo as dificuldades aos “desmandos pela orientação vacilante e contraditória que vem sendo imposta à nação”.

O legado de Luís Eulálio Vidigal

Luís Eulálio Vidigal, que faleceu em uma segunda-feira (29) aos 87 anos, em tratamento de doença renal crônica, deixou um legado complexo. Sua capacidade de diálogo com a imprensa, mesmo sob pressão, é um ponto notável. Em um episódio lembrado por Vasconcelos, Vidigal, ao ser provocado por telefonemas após a primeira reportagem, pediu a um amigo que avisasse o jornalista: “Diga ao Fred que eu posso não ser inteligente, mas burro eu não sou. Eu não faria isso.”

Outra anedota marcante ocorreu quando Mario Henrique Simonsen, então ministro do Planejamento, o indicou para o Conselho Monetário Nacional. Vidigal teria respondido: “Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho.” Essas passagens ilustram a personalidade de um empresário que, apesar das controvérsias, mantinha uma franqueza peculiar e uma percepção aguçada do cenário político e econômico de sua época. O caso Cobrasma permanece como um estudo de caso sobre os desafios da gestão empresarial em tempos de instabilidade econômica e a importância da comunicação transparente.

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