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Copa do Mundo: clássico entre Argentina e Inglaterra testa o combate ao racismo no futebol

Esporte

Nesta quarta-feira, 15 de julho de 2026, o mundo do futebol volta seus olhos para um dos confrontos mais aguardados da Copa do Mundo: Argentina e Inglaterra. Marcado para as 16h, o duelo vai além da disputa por uma vaga na próxima fase, transformando-se em um palco crucial para a discussão e o enfrentamento do racismo, um tema que tem reverberado intensamente por toda a competição. Enquanto a expectativa recai sobre a despedida de Lionel Messi em Copas e o brilho da estrela inglesa Jude Bellingham, o embate também se torna um termômetro para a efetividade das ações contra a discriminação nos gramados e nas arquibancadas.

A partida, que coloca frente a frente duas das maiores potências do futebol mundial, ganha contornos ainda mais complexos ao expor as diferentes posturas de seus protagonistas diante do racismo. De um lado, um jovem talento que se tornou voz ativa; do outro, um ícone questionado por seu silêncio. Este cenário sublinha a urgência de um debate que transcende o esporte, ecoando na sociedade como um todo.

Jude Bellingham: voz ativa e superação no futebol inglês

Aos 23 anos, o meio-campista inglês Jude Bellingham emerge não apenas como um craque em ascensão, mas como um símbolo de resistência. Sua trajetória é marcada pela superação de hostilidades em seu próprio país, que o levaram a deixar a Inglaterra precocemente. Apesar das críticas iniciais à sua convocação, Bellingham rapidamente se destacou, sendo decisivo na vitória contra o México, marcando dois dos três gols no Estádio Asteca no domingo, 5 de julho.

Fora dos gramados, o jogador negro tem se posicionado firmemente contra o racismo, tanto o direcionado a si quanto a seus colegas. Antes da Copa, Bellingham demonstrou apoio público a outras vítimas, como o brasileiro Vini Jr., com quem compartilha o campo no campeonato espanhol. Em entrevista ao jornal The Guardian, ele revelou receber mensagens racistas na maioria dos jogos, com a intensidade variando conforme seus resultados em campo.

Bellingham lamentou a persistência do problema, afirmando: “Não acho que exista uma única profissão no mundo em que você merece ser criticado por racismo. Mas, sabe, esse é o mundo em que vivemos e é por isso que precisamos fazer mais. As pessoas no poder precisam fazer mais.” Sua postura desafia a expectativa de subordinação frequentemente imposta a homens negros no esporte, o que, segundo especialistas, pode levá-lo a ser rotulado como “arrogante” por parte do público.

Messi e a Argentina: silêncio questionado e sanções pendentes

Em contraste com a proatividade de Bellingham, o capitão argentino Lionel Messi tem sido alvo de questionamentos por sua aparente falta de posicionamento contra atos racistas. Durante este mundial, a torcida argentina foi protagonista de dois incidentes notórios: um contra o influenciador negro IShowSpeed na arquibancada e outro contra torcedores egípcios. A ausência de uma manifestação pública de Messi sobre esses episódios tem gerado debate e críticas.

Ainda mais preocupante é a falta de sanções à torcida argentina por esses atos, mesmo com a existência de protocolos claros para lidar com a discriminação. Este cenário levanta dúvidas sobre a efetividade das medidas punitivas e a real vontade das entidades em coibir o racismo de forma contundente, independentemente da popularidade dos envolvidos.

O desafio do apoio condicional e a luta por responsabilização

Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, aponta que o apoio das torcidas a jogadores de diferentes origens étnicas, especialmente negros, é frequentemente condicional aos resultados das partidas. Ele reconhece os avanços no combate ao racismo no futebol inglês, que lançou um plano ousado em 2021, posicionando-se “à frente dos demais países”. Contudo, Carvalho expressa ceticismo quanto à durabilidade do apoio a Bellingham.

“Não torço para a Inglaterra perder, mas, se perder, veremos se esse apoio vai continuar”, avalia o diretor. Ele lembra casos recentes de jogadores holandeses e até ingleses que foram alvo de ofensas após derrotas, reforçando que “os ataques surgem na derrota”. A pressão sobre jogadores negros que se posicionam, como Bellingham, é ainda maior, pois “as pessoas querem ver negros mostrando subordinação. A partir do momento que você se posiciona e usa a sua voz, você desafia a ordem”, explica Carvalho.

Racismo na Copa: números alarmantes e a resposta da FIFA

Esta edição da Copa do Mundo tem sido marcada por uma série de incidentes racistas, evidenciando a persistência do problema em escala global. Além dos casos envolvendo torcedores argentinos, jogadores holandeses, alemães e até outros ingleses foram alvos de insultos. Grandes nomes como o francês Kylian Mbappé sofreram ataques diretos, cânticos racistas foram entoados por torcidas e houve até o veto dos Estados Unidos, país-sede da competição, à entrada do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan.

Os números corroboram a gravidade da situação. A FIFA, por meio de seu Serviço de Proteção às Redes Sociais, criado na Copa anterior em 2022, identificou e removeu 89 mil publicações abusivas nas redes sociais durante a fase de grupos. Este volume representa um aumento de 13 vezes em relação à edição anterior, após a análise de 6 milhões de publicações. Os comentários racistas constituíram 11% do total de mensagens ofensivas, revelando a dimensão do desafio.

Apesar do monitoramento da FIFA, organizações como a inglesa Kick it Out defendem que, embora a ação seja importante, é fundamental que haja maior responsabilização para gerar confiança nas denúncias. “Temporada após temporada, as pessoas denunciam à Kick it Out número recorde de casos, e é por isso que continuaremos a trabalhar com parceiros para garantir que existam políticas mais eficazes para lidar com esses problemas generalizados”, declarou a entidade em seu site.

As organizações civis clamam por um “esforço coordenado em escala global”, com o apoio da FIFA, que já implementou o Protocolo Vini Jr. A percepção é que o problema exige uma ação mais robusta e integrada das entidades do futebol, autoridades nacionais e internacionais. Um exemplo da lacuna na aplicação das regras foi o incidente com um árbitro de vídeo na primeira semana da Copa, acusado de fazer um gesto racista conhecido, símbolo comum entre supremacistas brancos. Embora a FIFA tenha investigado, concluiu que o ato não foi intencional, e nenhuma sanção foi aplicada.

O confronto entre Argentina e Inglaterra, portanto, não é apenas um jogo de futebol. É um lembrete contundente de que a luta contra o racismo nos esportes está longe de ser vencida e exige o engajamento contínuo de todos os envolvidos, desde jogadores e torcedores até as mais altas esferas de poder. Para aprofundar-se nos desafios e avanços do combate à discriminação nos gramados, clique aqui e confira a matéria original que inspirou esta análise.

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