A comunidade de Biddeford, no estado do Maine, nos Estados Unidos, foi palco de uma tragédia que reacendeu o debate sobre as operações de imigração no país. Na última segunda-feira, 13 de julho de 2026, Johan Sebastián Durán Guerrero, um imigrante colombiano de 25 anos, foi morto a tiros por um agente federal do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). O incidente, presenciado por sua esposa e filha de apenas três anos, gerou comoção e levantou sérias dúvidas sobre a conduta das autoridades, especialmente após a família de Guerrero afirmar que ele vivia legalmente nos EUA e trabalhava em dois empregos para sustentar sua família.
O incidente em Biddeford e a versão da família
O pai de Johan Sebastián Durán Guerrero, Omar Durán, expressou sua profunda dor e descreveu o filho como “uma boa pessoa, criada com valores sólidos”, em entrevista ao Noticias Caracol. Segundo ele, Johan tinha “uma grande visão de futuro, tantos sonhos para realizar” e dedicava-se a dois empregos para prover para a esposa e a filha. Guerrero trabalhava como entregador de comida para a DoorDash e, durante as noites, como funcionário da limpeza em uma clínica veterinária na pequena cidade de Biddeford, ao sul de Portland.
A morte ocorreu no quarteirão onde ele morava, um prédio residencial antigo. Vizinhos relataram uma cena caótica e violenta, com o som de múltiplos disparos e a imagem de um carro branco, perfurado por tiros, girando lentamente no cruzamento. Pouco depois, a esposa de Guerrero, Karo Rojas, foi vista ajoelhada e chorando desesperadamente ao lado do marido na rua, enquanto a filha do casal observava a cena. Rojas, em um comovente tributo nas redes sociais, compartilhou fotos da família sorrindo, escrevendo: “Eu vou amar você todos os dias da minha vida.”
Morte de colombiano por ICE: controvérsia sobre a situação migratória
A versão oficial apresentada pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) classificou Guerrero como um “estrangeiro em situação irregular” que “tentou fugir do local”. No entanto, essa declaração contrasta fortemente com as informações que surgiram nas horas seguintes à sua morte. Um porta-voz do senador Angus King, do Maine, revelou que o secretário de Segurança Interna havia informado ao senador que os agentes do ICE estavam, na verdade, procurando outra pessoa. O DHS, em seu comunicado, não identificou a pessoa que era o alvo original da operação, nem forneceu detalhes adicionais sobre a situação migratória de Guerrero, além da classificação genérica.
Omar Durán, pai da vítima, foi enfático ao afirmar que seu filho estava em situação migratória regular nos Estados Unidos, desmentindo a alegação das autoridades. A discrepância entre as narrativas adiciona uma camada de complexidade e urgência à investigação do caso, levantando sérias questões sobre a precisão das informações e os procedimentos adotados pelos agentes federais do Departamento de Segurança Interna.
Repercussão política e social
A morte de Johan Sebastián Durán Guerrero não passou despercebida. Imediatamente, intensos protestos eclodiram em Biddeford e na cidade vizinha de Scarborough, onde há uma instalação do ICE, com manifestantes exigindo justiça e transparência. A bancada do Maine no Congresso reagiu prontamente, enviando uma carta a Joseph V. Cuffari, inspetor-geral do Departamento de Segurança Interna, solicitando uma investigação urgente e imparcial.
Na carta, os senadores Angus King (independente), Susan Collins (republicana) e os deputados Chellie Pingree e Jared Golden (democratas) destacaram a “grande preocupação para a comunidade local” e a necessidade de uma “apuração completa e imparcial”. Em resposta à crescente pressão e à gravidade da situação, o governo ordenou a suspensão da maioria das abordagens de veículos por agentes federais em todo o país. Essa medida foi solicitada pela senadora Collins após a morte de Guerrero, que marcou o segundo caso fatal em apenas duas semanas envolvendo agentes federais durante abordagens de trânsito.
Um padrão preocupante: o caso de Houston
Apenas uma semana antes do incidente no Maine, um agente do ICE havia matado a tiros Lorenzo Salgado Araujo, um imigrante mexicano, durante uma abordagem de trânsito em Houston. O Departamento de Segurança Interna posteriormente confirmou que Araujo também não era o alvo da operação. Essa sequência de eventos levanta um alerta sobre os protocolos e a formação dos agentes do ICE, bem como sobre as consequências trágicas de operações que resultam na morte de pessoas que, aparentemente, não eram os alvos pretendidos.
A comunidade internacional e defensores dos direitos dos imigrantes observam com preocupação a escalada de violência e a falta de clareza em torno dessas mortes. A vida de Johan Sebastián, um jovem de Bucaramanga, Colômbia, que buscava construir um futuro nos EUA, foi abruptamente interrompida, deixando uma família desolada e uma comunidade em busca de respostas e justiça.
Apoio e solidariedade à família
Em meio à tragédia, a solidariedade se manifestou. Amigos da família Guerrero organizaram uma vaquinha online que, até a tarde de terça-feira, já havia arrecadado US$ 150 mil (cerca de R$ 760 mil). O objetivo é cobrir as despesas legais, os custos do funeral e o traslado do corpo de Johan para a Colômbia, onde seus pais aguardam para lhe dar um sepultamento digno. A mobilização reflete a comoção e o desejo de apoiar a esposa e a filha de Johan, que agora enfrentam um futuro incerto sem seu principal provedor.
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