Um novo estudo da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, acende um alerta sobre um grupo de eleitores frequentemente subestimado: os ‘neutros’ democraticamente. Publicado em maio na prestigiada revista científica Nature Human Behaviour, o artigo argumenta que esses cidadãos, que não expressam apoio nem oposição a práticas antidemocráticas, representam uma ameaça tão grave quanto aqueles que as endossam explicitamente. A pesquisa sugere que a neutralidade política pode abrir uma perigosa margem de manobra para que políticos minem as instituições democráticas sem enfrentar repercussões eleitorais significativas.
A análise, conduzida por Matthew Hall, B. Tyler Leigh e Brittany Solomon, desafia a percepção comum de que apenas o apoio direto a atos antidemocráticos é motivo de preocupação. Ao focar nos eleitores que se abstêm de tomar uma posição clara — selecionando ‘não concordo nem discordo’ em pesquisas sobre tais práticas — os pesquisadores revelam uma vulnerabilidade crítica nos sistemas democráticos modernos.
A neutralidade democrática como risco subestimado
A literatura acadêmica sobre o tema costuma focar nos eleitores que abertamente apoiam ou rejeitam ações que desrespeitam as normas democráticas. Contudo, os autores do estudo direcionaram sua atenção para a parcela da população que, em pesquisas, escolhe a opção ‘não concordo nem discordo’ ao ser questionada sobre atos antidemocráticos. Este grupo, que se posiciona em uma zona cinzenta, tem sido largamente ignorado, mas suas implicações para a saúde da democracia são profundas.
Os pesquisadores concluíram que, no momento crucial das urnas, esses eleitores ‘neutros’ se comportam de forma surpreendentemente similar aos que apoiam explicitamente práticas antidemocráticas. Isso significa que, na prática, a ausência de uma oposição ativa por parte desses cidadãos acaba por legitimar, indiretamente, ações que corroem os pilares da governança democrática. O achado é preocupante para a estabilidade política, pois indica que a passividade pode ser tão prejudicial quanto a hostilidade declarada.
O paradoxo eleitoral: Trump, Bolsonaro e o apoio velado
A relevância dessa descoberta é evidenciada por cenários políticos recentes em diversas nações. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ex-presidente Donald Trump, mesmo após disseminar alegações falsas de fraude eleitoral, adotar uma retórica agressiva contra a imprensa e opositores, e atacar juízes que emitiam decisões desfavoráveis a ele, recebeu 77 milhões de votos em 2024. Este fenômeno, à primeira vista, parece contradizer a ideia de que a maioria dos americanos não apoia explicitamente atos antidemocráticos. O estudo sugere que a neutralidade de uma parcela significativa do eleitorado pode ser a chave para entender como figuras com discursos e práticas controversas conseguem ascender ao poder.
Um paralelo notável pode ser traçado com o Brasil. Às vésperas das eleições presidenciais de 2018, que levaram Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto com quase 58 milhões de votos, pesquisas do Datafolha indicavam um apreço recorde pela democracia, com apenas 12% dos entrevistados preferindo uma ditadura em certas circunstâncias. No entanto, Bolsonaro possuía um histórico de declarações abertamente antidemocráticas, como a defesa de um golpe e a sugestão de assassinato de opositores em 1999. A aparente contradição entre o apreço democrático da população e a eleição de líderes com posturas autoritárias é um enigma que a análise da neutralidade democrática ajuda a desvendar.
Implicações para a governança e a estabilidade democrática
Os autores do artigo na ‘Nature Human Behaviour’ alertam que, ao contrário do que se poderia supor, a falta de uma oposição clara a práticas antidemocráticas por parte dos eleitores ‘neutros’ não significa uma indiferença inofensiva. Pelo contrário, ela confere aos representantes eleitos uma margem de manobra consideravelmente maior para violar as normas democráticas. Isso significa que políticos podem, por exemplo, reduzir o número de seções eleitorais de partidos adversários ou ignorar decisões judiciais contrárias aos seus interesses, sem temer uma retaliação significativa nas urnas.
A ausência de uma condenação explícita por parte de uma grande parcela do eleitorado normaliza tais comportamentos, erodindo gradualmente os pilares da democracia. A pesquisa enfatiza que a ameaça não reside apenas nos que ativamente buscam minar a democracia, mas também naqueles que, por omissão ou falta de engajamento crítico, permitem que tais ações prosperem. Compreender a dinâmica da neutralidade democrática é crucial para identificar vulnerabilidades nos sistemas políticos e desenvolver estratégias para fortalecer a resiliência das instituições frente a desafios autoritários. O estudo convida a uma reflexão sobre a responsabilidade cívica e a necessidade de uma vigilância constante por parte de todos os cidadãos, mesmo aqueles que se consideram apartidários ou indiferentes às nuances da política.
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