Transtorno Dissociativo de Identidade: Ciência desvenda mitos e a complexa realidade

Transtorno Dissociativo de Identidade: Ciência desvenda mitos e a complexa realidade

Saúde

Imagine sair de casa para o trabalho e, horas depois, “acordar” em outro bairro sem qualquer lembrança de como chegou lá. Ou encontrar roupas novas no armário que não se recorda de ter comprado. Essas situações, que poderiam facilmente compor um roteiro de suspense psicológico, são parte da realidade de indivíduos que convivem com o transtorno dissociativo de identidade (TDI), uma condição psiquiátrica complexa e frequentemente mal compreendida.

Descrito no DSM-5, o manual de referência da psiquiatria, o TDI é caracterizado pela alternância de duas ou mais identidades distintas no controle da mesma pessoa. Essa condição provoca rupturas significativas na memória, na autopercepção e no comportamento, gerando um cenário de fragmentação interna que desafia a compreensão comum e é cercado por muitos mitos.

Desvendando os Sinais do Transtorno Dissociativo de Identidade

As chamadas identidades alternativas, ou “alters”, podem manifestar maneiras próprias de falar, agir, lembrar e interpretar o mundo. Um dos aspectos mais cruciais para o diagnóstico é a existência de lacunas de memória, onde uma identidade não tem recordação das experiências da outra. “Algo imprescindível nesse quadro é a existência de uma lacuna de memória, onde uma identidade não lembra da outra”, explica o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental.

Ao contrário das representações dramáticas do cinema, como nos filmes “Fragmentado” (2016) e “Vidro” (2019), onde o personagem Kevin Wendell Crumb exibe 23 personalidades violentas, a manifestação do TDI na prática clínica é, em geral, mais sutil. A forma mais comum é a não possessiva, na qual as mudanças são discretas e internas. “Geralmente são mais egodistônicas, ou seja, a pessoa não quer ter e, com isso, acaba aparecendo de uma maneira menos exuberante, mais tímida”, relata Oliva.

Pacientes frequentemente descrevem uma sensação de despersonalização, como se observassem a própria vida de fora. Além disso, é comum o relato de vozes internas que, diferentemente de alucinações psicóticas, são fluxos de pensamento independentes das outras identidades. “Além disso, é comum o relato de vozes internas, que não são alucinações psicóticas, mas fluxos de pensamento independentes das outras identidades”, comenta a psicóloga Lidiane de Souza, professora da Universidade São Judas, em São Paulo.

Já a forma possessiva, embora menos frequente, é mais exuberante e pode ter um reforço cultural ou permissividade, onde a pessoa se permite expressar essas identidades de forma mais marcada no meio social. “Geralmente, tem um reforço cultural ou permissividade. A pessoa quer apresentar aquilo”, sinaliza o psiquiatra do Einstein.

O Desafio do Diagnóstico e a Raiz Traumática da Dissociação

O diagnóstico do TDI é notavelmente complexo, pois seus sintomas podem ser confundidos com outras condições psiquiátricas que também envolvem alterações de comportamento, percepção ou identidade. Entre elas, destacam-se a esquizofrenia, o transtorno de personalidade borderline, a epilepsia do lobo temporal e o transtorno factício. No entanto, o cenário mais comum é o de subdiagnóstico, muitas vezes porque os pacientes sentem vergonha e se esforçam para ocultar suas experiências internas.

O principal consenso científico atual aponta para uma forte associação entre o TDI e traumas graves e repetidos na infância. Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Psychiatry indicou que a maioria dos pacientes relata o início dos sintomas ainda entre os 5 e 8 anos de idade. “O trauma não é apenas um fator de risco, ele é a espinha dorsal do TDI”, afirma Souza.

Abusos físicos, sexuais, emocionais e ambientes cronicamente aterrorizantes podem levar a criança a desenvolver a dissociação como um mecanismo extremo de sobrevivência psíquica. Diante de experiências insuportáveis, a mente fragmenta emoções, memórias e comportamentos para preservar algum funcionamento emocional. “Não compreendemos o TDI como a criação de várias pessoas habitando um mesmo corpo, mas como uma falha profunda na integração de um repertório comportamental coeso”, explica a psicóloga.

Um estudo publicado em 2025 na Psychiatry Research, com participantes da Holanda e da Suíça, reforça essa relação, observando que pessoas com TDI apresentavam níveis significativamente maiores de sintomas dissociativos, depressão, ansiedade, experiências traumáticas e distúrbios do sono em comparação ao grupo controle. “Também existem alguns componentes sociais que podem estar no contexto da origem do transtorno, como influência cultural do meio e sugestionabilidade. Mas, sim, o trauma é um ponto importante”, reforça Daniel Oliva.

Impactos Profundos na Vida e a Busca por Compreensão

Os lapsos de memória são um dos sinais mais marcantes e incapacitantes do transtorno. Não se trata apenas de esquecer compromissos; alguns indivíduos relatam perder horas sem qualquer lembrança do que aconteceu. “As pessoas relatam se encontrar em lugares que não sabem como chegaram lá, ou ter objetos em posse que não reconhecem. Além disso, cada alter tem memórias gravadas e acesso a essas memórias de uma maneira particular”, relata o psiquiatra.

Essa descontinuidade afeta profundamente relacionamentos, trabalho e vida social. Parceiros e familiares frequentemente se sentem invalidados ou magoados quando a pessoa não recorda momentos significativos ou nega atitudes que, na verdade, foram tomadas por outro estado de identidade. “Sem diagnóstico e psicoeducação adequados, isso leva a conflitos severos e ao isolamento social”, afirma Lidiane de Souza. A compreensão e o apoio são cruciais para quem vive com essa condição.

Apesar da crescente compreensão sobre o TDI, pesquisas sobre tratamentos ainda são escassas, e o transtorno permanece subdiagnosticado. A comunidade científica continua a aprofundar os estudos para desmistificar a condição e oferecer caminhos mais eficazes para o tratamento e a qualidade de vida dos pacientes. Para mais informações sobre saúde mental e transtornos dissociativos, consulte fontes confiáveis como a Organização Mundial da Saúde.

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