No cenário efervescente da saúde mental, onde a psicoterapia psicodélica ganha cada vez mais destaque, uma voz experiente surge para lançar um alerta crucial. A psicoterapeuta Kari Gleiser, conhecida por sua abordagem inovadora e por sua experiência com substâncias amplificadoras da consciência, expressa profunda preocupação com os rumos que a “virada psicodélica” pode tomar. Em entrevista, Gleiser, que se prepara para palestrar na Rio Innovation Week na terça-feira, 4 de agosto de 2026, aponta para o que descreve como um “lado sombrio” da psicodelia, especialmente quando impulsionada por interesses comerciais e uma visão simplista da cura.
Há dois anos, Kari e seu marido, o físico Marcelo Gleiser, estabeleceram-se em um templo do século 17 na Toscana, Itália, onde fundaram a “Ilha de Conhecimento”, um retiro dedicado ao florescimento humano. Embora não seja um retiro psicodélico no sentido estrito, o espaço reflete a filosofia de explorar estados de consciência para o autoconhecimento e a cura. Sua palestra, intitulada “A ciência descobriu que algumas drogas curam o que nenhum remédio conseguiu. E isso muda tudo sobre saúde mental”, promete aprofundar a discussão sobre o que ela considera o “casamento perfeito” entre psicoterapia e psicodélicos, mas também os riscos iminentes.
A Ilha de Conhecimento e a Abordagem Terapêutica
Com duas décadas de experiência na psicoterapia dinâmica experiencial acelerada (AEDP), Kari Gleiser se destaca por sua paixão por experiências intensas e profundas. A ultramaratonista descreve-se como “viciada em ter experiências”, um traço que a atraiu para um modelo de terapia que “tem coragem em enfrentar emoções profundas e relacionamentos intensos com as pessoas”. Para ela, os psicodélicos funcionam como amplificadores dessas experiências, intensificando emoções, sensações e conexões, e revelando o potencial curativo inerente ao próprio paciente.
A metodologia AEDP, na qual Gleiser é especializada, parte do princípio de que a psicopatologia não é apenas resultado de um trauma, mas da solidão experimentada ao lidar com ele. Quando essas emoções profundas vêm à tona durante uma sessão, a terapeuta adota uma postura ativa de amparo, algo que a distingue de abordagens mais passivas, como a psicanálise. Essa presença ativa do terapeuta é crucial para guiar o paciente através de experiências intensificadas pelas substâncias, garantindo que a jornada seja de cura e integração, e não de dissociação.
O Potencial Curativo das Substâncias
A curiosidade de Kari Gleiser sobre o potencial terapêutico dos psicodélicos a levou a explorar pesquisas com MDMA (ecstasy) para o tratamento de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) há cerca de quatro anos. A experiência subjetiva com o MDMA, marcada por uma “inundação de empatia”, tornou-lhe evidente o vasto potencial terapêutico da substância. Posteriormente, ela introduziu o MDMA ao seu marido, Marcelo Gleiser, como compartilharam no podcast Luminous, de Steve Paulson, evidenciando a relevância pessoal e profissional dessa descoberta.
Enquanto aguarda a regulamentação do MDMA, que enfrentou um revés em 2024 na agência de fármacos FDA dos Estados Unidos, Kari Gleiser já trabalha com cannabis e cetamina em sua prática. A pesquisa e o desenvolvimento de terapias assistidas por psicodélicos são acompanhados de perto por organizações como a Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), que tem sido pioneira nos estudos com MDMA. Ela explica que essas “medicinas que criam estado alterado de consciência deixam a pessoa mais no corpo, mais no inconsciente”, pois “tiram as rédeas das mãos de controle do córtex pré-frontal”. Essa desativação temporária das defesas cognitivas permite que os pacientes acessem paisagens internas profundas, liberando o poder curativo que já reside neles.
A Preocupação com a Comercialização e a “Psicodelia à Moda Trump”
Apesar do otimismo com o potencial terapêutico, Kari Gleiser manifesta profunda inquietação com a possibilidade de que o “casamento” entre psicoterapia e psicodélicos seja desvirtuado antes mesmo de sua plena legalização. A entrada ruidosa da Big Pharma no campo psicodélico e a ordem executiva do ex-presidente Donald Trump para acelerar as pesquisas são vistas por ela como fatores que podem consagrar as moléculas e o uso contínuo em detrimento da psicoterapia e da vivência subjetiva do estado psicodélico.
A psicoterapeuta critica veementemente a ideia de “cortar a experiência”, como a sugestão de administrar psicodélicos enquanto o paciente dorme. “Essas pessoas acham que podem cortar até a experiência. Vamos dar de noite enquanto está dormindo”, espanta-se Gleiser. Para ela, essa abordagem reflete uma “doença cultural” que busca “amplificar a dissociação” em vez de promover a conexão. A essência da cura, segundo ela, reside na integração da experiência, e não na sua supressão ou minimização.
Ética, Conexão e o Futuro da Saúde Mental
A visão de Kari Gleiser transcende a mera aplicação de substâncias; ela enfatiza a importância da ética e da integridade no campo da psicoterapia psicodélica. A terapeuta adverte que, “se as pessoas só quiserem pensar em como maximizar o dinheiro que vão fazer com isso, vai-se por um caminho muito ruim, muito escuro, que é uma falta de ética dos profissionais de saúde”. Essa busca desenfreada por lucro pode comprometer a qualidade do tratamento, transformando uma ferramenta de profunda cura em mais um produto de consumo.
A mensagem central de Gleiser é um apelo por mais conexão e menos desconexão. Em um mundo onde a solidão e a dissociação são problemas crescentes, a psicoterapia psicodélica, quando bem aplicada, oferece uma oportunidade única de reconectar indivíduos consigo mesmos e com os outros. O desafio, portanto, é garantir que essa “virada psicodélica” seja guiada por princípios éticos, focada na experiência humana e na cura integral, e não apenas na maximização de lucros.
A perspectiva de Kari Gleiser oferece uma reflexão essencial sobre o futuro da saúde mental e o papel dos psicodélicos nesse cenário. Suas palavras ressoam como um lembrete de que a inovação, para ser verdadeiramente transformadora, deve estar alinhada com a ética e o profundo respeito pela experiência humana. Para continuar acompanhando debates cruciais como este e ter acesso a análises aprofundadas sobre os temas mais relevantes do Brasil e do mundo, convidamos você a explorar o Diário Global. Nosso compromisso é oferecer informação de qualidade, contextualizada e que realmente importa para a sua compreensão do mundo.
