Adriano Vizoni/Folhapress

Mulher na ciência: Ester Sabino expõe barreiras da cultura machista no meio acadêmico

Saúde

A trajetória de sucesso da cientista Ester Sabino, uma das figuras mais proeminentes da pesquisa brasileira, é marcada não apenas por suas notáveis contribuições, mas também pelos desafios impostos por uma persistente cultura machista. Aos 66 anos, a pesquisadora e professora titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) viu seu trabalho ser questionado e sua capacidade subestimada, mesmo após uma carreira repleta de feitos que a colocaram em destaque nacional e internacional.

Ester Sabino, que dirigiu o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo entre 2015 e 2019 e foi peça-chave no sequenciamento do genoma do novo coronavírus no Brasil em 2020, relata episódios em que sua liderança e competência foram colocadas à prova. Sua experiência, compartilhada na pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras” do Estúdio Clarice, lança luz sobre as “barreiras invisíveis” que muitas mulheres enfrentam no ambiente científico.

A Trajetória Brilhante de Ester Sabino na Pesquisa

Com um currículo invejável, Ester Sabino consolidou-se como uma referência na ciência brasileira. Sua atuação na Faculdade de Medicina da USP e a direção de um instituto de pesquisa de tamanha relevância demonstram uma dedicação e um intelecto excepcionais. O ponto alto de sua carreira recente foi, sem dúvida, a coordenação do sequenciamento do genoma do Sars-CoV-2 no Brasil, um feito crucial para o entendimento e combate à pandemia de COVID-19.

Essa conquista não apenas evidenciou a capacidade da ciência brasileira, mas também projetou Ester Sabino para o cenário global, tornando-a uma voz respeitada em discussões sobre saúde pública e pesquisa. Suas credenciais e a importância de suas descobertas deveriam, em tese, blindá-la de qualquer questionamento sobre sua aptidão.

O Machismo Velado e as Barreiras Invisíveis na Ciência

Apesar de sua inquestionável competência, Ester Sabino revela que o reconhecimento nem sempre se traduz em igualdade de tratamento. Ela conta que um colega chegou a perguntar a outra pessoa se era, de fato, ela quem conduzia as pesquisas que afirmava liderar. “Toda vez que conversamos, não importava o que eu tivesse feito, ele achava que eu não era capaz”, desabafa a cientista.

Esse tipo de atitude, que ela descreve como uma “barreira invisível, difícil de ser detectada”, manifestou-se de diversas formas ao longo de sua trajetória. Ester menciona situações em que colegas homens não a escutavam e “nãos” eram engolidos sem que ela compreendesse os motivos. Um dos episódios mais marcantes foi a necessidade de deixar um grupo de pesquisa por discordar de outros membros, todos homens.

A cientista compara a jornada feminina na ciência a um caminho cheio de obstáculos, enquanto o masculino parece mais fluido. Essa percepção de uma “névoa” que impedia a visualização clara do problema só se dissipou para ela após se tornar uma “cientista conhecida”, a partir de março de 2020, quando passou a ser convidada para mesas de debate com feministas.

A Descoberta da “Névoa” e o Engajamento Feminista

O reconhecimento público e a visibilidade que Ester Sabino ganhou durante a pandemia foram um divisor de águas em sua percepção sobre o machismo. “Eu, que nem percebia as dificuldades pelas quais passava por ser mulher, comecei a ser chamada para mesas com feministas. E fui percebendo que havia uma névoa na minha frente, me impedindo de ver esse problema”, lembra.

Essa epifania a impulsionou a se tornar uma defensora ativa da presença feminina em posições de influência. Para ela, a mudança só virá quando mais mulheres ocuparem cargos de poder e liderança. Seu lema é “Você tem que treinar uma nova geração a não achar determinadas situações normais”, incentivando outras mulheres a não aceitarem o status quo.

Empoderamento e a Força da Colaboração Feminina

A experiência de Ester Sabino com o grupo Mulheres do Brasil, liderado pela empresária Luiza Trajano, ilustra o poder da colaboração feminina. Durante a pandemia, a proposta de abrir um laboratório de sequenciamento em cada capital do país inicialmente pareceu “maluca” para a cientista. No entanto, a crença e o empoderamento vindos de Luiza Trajano foram cruciais para que a ideia se concretizasse.

“Mas o fato de a Luiza acreditar e dizer ‘vamos fazer’ empodera. Isso muda as coisas. E foi feito”, recorda Ester. Essa iniciativa bem-sucedida reforça a tese de que a união e o apoio entre mulheres são fundamentais para superar as barreiras e transformar a realidade. Desde 2021, Ester Sabino é homenageada com um prêmio que leva seu nome, um reconhecimento de sua luta e inspiração para futuras gerações de cientistas.

A história de Ester Sabino é um lembrete contundente de que, mesmo em áreas de alta intelectualidade como a ciência, a cultura machista ainda se manifesta, desafiando o trabalho e o reconhecimento das mulheres. Seu testemunho é um chamado à reflexão e à ação para que o ambiente acadêmico e profissional se torne verdadeiramente equitativo. Para aprofundar-se em temas como este e acompanhar as discussões mais relevantes do cenário nacional e global, continue navegando pelo Diário Global, seu portal de informação relevante e contextualizada.

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