Em um cenário político cada vez mais polarizado, a fé de evangélicos que se alinham à esquerda tem sido alvo constante de questionamentos e ataques por parte de adversários da direita. A estratégia visa deslegitimar esses nomes perante o eleitorado crente, buscando associá-los a figuras como Judas ou a uma religiosidade inautêntica.
Essa dinâmica ficou evidente com a recente declaração de Flávio Bolsonaro (PL), que justificou sua ausência no debate da Band neste domingo (23) afirmando preferir debater “com quem não acredita em Deus”. Ele ainda prometeu, caso eleito presidente, decretar que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo”. A provocação, claramente direcionada a Lula (PT), que também não compareceu ao confronto entre presidenciáveis, ilustra como a carta religiosa é utilizada para embaralhar o jogo eleitoral.
Apropriação da Fé e Narrativas de Descrédito
Embora Lula se declare católico e tenha reforçado publicamente sua crença em Deus, uma fake news sobre sua suposta descrença foi disseminada por rivais como a deputada Bia Kicis (PL-DF). Essa tática se estende a todo o espectro ideológico da esquerda, que é frequentemente retratado como oportunista e sem legitimidade para dialogar com os evangélicos.
A senadora Eliziane Gama, que trocou o PSD pelo PT em abril, exemplifica bem essa dinâmica. Em março, a parlamentar maranhense declarou que sua fé a guiava politicamente, afirmando: “Sou evangélica, sigo Jesus Cristo de Nazaré, defendo a vida, as mulheres e as crianças brasileiras e tenho plena convicção de que eu estou dentro daquilo que Deus me orientou a fazer”.
Apesar da clareza de sua declaração, canais conservadores rapidamente sugeriram uma religiosidade de fachada. Atos como posar lendo a Bíblia ao lado de seus pais, fiéis da Assembleia de Deus maranhense, foram interpretados como “teatro para atrair o eleitorado crente”. O portal Gospel Mais estampou a manchete: “Senadora de esquerda que enterrou CPI do INSS tenta emplacar imagem de evangélica”. As redes sociais amplificaram a retórica, com a médica bolsonarista Mayra Pinheiro (PL-CE), conhecida como Capitã Cloroquina, atacando: “Não use o nome de Deus em vão! Você nos envergonha”.
Histórico de Contestações e o Rótulo de “Falso Cristão”
O questionamento da fé de políticos de esquerda não é um fenômeno recente. Em 2014, Marina Silva (Rede-SP) foi acusada pelo pastor Silas Malafaia de ser “a cristã mais falsa que poderia concorrer à Presidência” por não se posicionar claramente sobre a questão LGBTQIA+. Imputações semelhantes a perseguem desde então, evidenciando a persistência dessa estratégia.
Mais recentemente, o cantor gospel Kleber Lucas (PT-RJ) iniciou sua carreira partidária em 2026. Seu engajamento político rapidamente gerou insinuações de que o intérprete de hinos evangélicos, amplamente conhecido na comunidade crente, seria um “cristão postiço”. O site Fuxico Gospel destacou que a associação com o gospel “Vai Lá, Judas”, uma faixa de Alex Gomes que aborda traição e falsidade, se multiplicou após sua entrada na política.
Kleber Lucas, que cantou com a primeira-dama Janja no lançamento da campanha de Lula, é suplente na chapa de Benedita da Silva, outra petista evangélica, ao Senado. A constante tentativa de enquadrar esses líderes como “falsos cristãos” ou “Judas” revela uma tática de guerra cultural e eleitoral, onde a fé é instrumentalizada para fins políticos, buscando minar a credibilidade de adversários e consolidar um discurso hegemônico sobre o que significa ser “verdadeiramente evangélico” no Brasil.
Essa abordagem não apenas radicaliza o debate público, mas também impõe um desafio significativo àqueles que buscam conciliar sua fé com uma agenda política progressista, forçando-os a defender constantemente a autenticidade de suas convicções religiosas. O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos dessa complexa intersecção entre fé e política no país, oferecendo análises aprofundadas e contextualizadas para que você se mantenha sempre bem informado. Continue conosco para mais notícias relevantes e de qualidade.

