25.abr.13/Folhapress

Morre Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista que foi voz da resistência à ditadura militar

Politica

O jornalismo brasileiro e a luta pela democracia perderam uma de suas figuras mais emblemáticas. Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista que se tornou um símbolo da resistência à ditadura militar no Brasil, faleceu neste sábado (2), no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Sua partida deixa um legado de coragem, ética e compromisso com a verdade, forjado em um dos períodos mais sombrios da história do país.

Pereira, cuja trajetória profissional foi marcada pela perseguição política e pela defesa intransigente da liberdade de imprensa, é lembrado por sua atuação em veículos que desafiaram a censura e a repressão. Sua vida é um testemunho da importância do jornalismo investigativo e engajado na construção de uma sociedade mais justa e transparente.

Uma Trajetória Marcada pela Perseguição e Coragem Jornalística

Nascido em Exu, Pernambuco, em 8 de setembro de 1940, Raimundo Rodrigues Pereira iniciou sua formação acadêmica na área de física, cursando engenharia no prestigiado ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) entre 1960 e 1964. Foi nesse ambiente que seu talento para a escrita e o pensamento crítico começou a florescer, ao colaborar com o jornal estudantil O Suplemento.

No entanto, o ano de 1964, que marcou o golpe militar no Brasil, transformou drasticamente sua vida. Os textos que publicava no jornal estudantil repercutiram negativamente junto às autoridades do regime. Como consequência, Pereira foi alvo de perseguição política, sendo expulso do ITA e preso pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) paulista. Ele passou dois meses detido na Base Aérea de Santos, no Guarujá, um período que, embora traumático, o impulsionaria ainda mais para o jornalismo.

Após ser solto, sem diploma e sem emprego, Pereira encontrou no ensino de matemática uma forma de sustento. Foi por meio de um de seus alunos que ele recebeu um convite para escrever em revistas técnicas, abrindo as portas para sua entrada definitiva no jornalismo profissional, onde rapidamente se destacaria pela perspicácia e profundidade de suas análises.

Pioneirismo e Denúncia: A Reportagem sobre Torturas na Veja

Em 1967, Pereira trabalhou como editor na Folha da Tarde. No ano seguinte, a convite de Mino Carta, ele integrou a equipe fundadora da revista Veja, da Editora Abril. Foi na Veja que ele coordenou uma das mais impactantes e corajosas reportagens da época: a denúncia das torturas praticadas pela ditadura militar.

A estratégia utilizada pela equipe foi engenhosa e arriscada. Valendo-se de uma declaração de um assessor do então presidente Emílio Médici, que afirmava que o presidente não admitia tais práticas, a reportagem se propôs a “informar o governo” sobre os casos de tortura. A edição, que estampou a palavra “Torturas” na capa, relatou uma série de ocorrências, expondo a brutalidade do regime e furando o bloqueio da censura de forma inovadora. Esse episódio, detalhado no livro Contracorrente (2013), biografia de Pereira, é um marco na história da imprensa brasileira e um exemplo de resistência editorial.

Voz Ativa na Imprensa Alternativa: Opinião e Movimento

A atuação de Raimundo Rodrigues Pereira não se limitou aos grandes veículos. Ele também colaborou com a revista Realidade e, posteriormente, integrou as equipes dos jornais Opinião e Movimento. Essas publicações, surgidas no final dos anos 1970, foram pilares da imprensa alternativa e da resistência à ditadura, oferecendo um contraponto à narrativa oficial e um espaço para a crítica e o debate democrático.

O jornal Movimento, que circulou entre 1975 e 1981, operou sob constante censura prévia e enfrentou severas dificuldades financeiras. Mesmo assim, conseguiu manter-se como uma voz potente contra o regime. O Memorial da Resistência, museu estatal localizado no antigo prédio do Dops paulista, reconhece a publicação como “um dos mais importantes jornais de resistência do país”, sublinhando a relevância do trabalho de Pereira e de seus colegas na defesa da liberdade de expressão em tempos de opressão.

Legado de um Símbolo da Liberdade de Imprensa

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa), ao lamentar a morte de Pereira, afirmou que ele foi “um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar”. Esse reconhecimento reflete a dimensão de sua contribuição não apenas para o jornalismo, mas para a própria consolidação da democracia no Brasil.

Filho de comerciantes que se mudaram para São Paulo na década de 1960, Raimundo Rodrigues Pereira passou os últimos anos de sua vida no Rio de Janeiro. Foi casado com a socióloga Sizue Imanishi, falecida em 2020, e deixa quatro filhas. Sua memória e seu legado de coragem e integridade continuarão a inspirar futuras gerações de jornalistas e cidadãos comprometidos com a liberdade e a justiça.

Para saber mais sobre a história da imprensa brasileira e outros temas relevantes, continue acompanhando o Diário Global. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, para que você esteja sempre bem-informado sobre os acontecimentos que moldam o Brasil e o mundo. Acesse nosso portal para mais conteúdos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *