se levar, mas é, ao contrário, uma escolha consciente (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo )

Tolerância ativa: por que discordar não é intolerância e aprovar não é o mesmo que aceitar

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No cenário contemporâneo, marcado por intensas discussões e polarizações, o conceito de tolerância frequentemente se vê distorcido. Muitos o associam à passividade, à submissão ou, ainda, à omissão diante de ideias e comportamentos que geram desconforto. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que a tolerância é uma virtude ativa, que exige coragem e uma escolha consciente, distanciando-se de qualquer conotação de fraqueza ou indiferença.

A verdadeira tolerância não significa endossar tudo o que o outro pensa ou faz, mas sim reconhecer o direito à diferença e à coexistência pacífica, mesmo diante de divergências profundas. É nesse ponto que a distinção entre tolerar e aprovar se torna crucial, oferecendo um caminho para a convivência em uma sociedade plural sem que se percam os valores éticos e morais fundamentais.

A essência da tolerância: uma escolha consciente e ativa

Em meio aos debates cotidianos, é comum que a soberba se manifeste, levando indivíduos a se considerarem superiores em suas posições e a tentarem “educar” o outro, visto como um adversário. Contra essa postura, a humildade emerge como um contraponto essencial, incentivando a valorização do ponto de vista alheio. A tolerância, nesse contexto, pode ser um primeiro e importante passo para essa valorização.

Longe de ser uma atitude passiva, a tolerância é uma decisão deliberada. Ela não implica em deixar-se levar pelas circunstâncias ou pelas opiniões dominantes, mas sim em exercer a capacidade de discernimento e de aceitação da alteridade. É um exercício de coragem que permite a construção de pontes em vez de muros, promovendo um ambiente onde o diálogo e o respeito mútuo podem florescer, mesmo quando as convicções são distintas.

Raízes históricas da tolerância: da Antiguidade aos Iluministas

A reflexão sobre a tolerância não é recente. Na Antiguidade, pensadores como Aristóteles já abordavam a importância do equilíbrio, ou o “meio-termo”, entre o excesso e a falta. Embora reconhecesse que certas atitudes, como a inveja ou o assassinato, não admitiriam meio-termo, sua filosofia pavimentou o caminho para a ideia de moderação. O imperador romano e filósofo estoico Marco Aurélio, por sua vez, defendia a convivência serena com aqueles que pensavam diferente, lembrando que o erro é uma condição humana universal.

A história do Império Romano, relativamente tolerante com as religiões dos povos conquistados, mas com tensões notáveis com judeus e cristãos, ilustra a complexidade da questão religiosa. Com a ascensão do cristianismo, a perseguição a outras crenças se tornou uma realidade, evidenciando a centralidade da religião no debate sobre a tolerância. Foi a partir do século XVI, com a Reforma Protestante e a Contrarreforma Católica, que o tema ganhou nova intensidade.

Nesse período, figuras como John Locke, em suas Cartas sobre a Tolerância, argumentaram que a força é ineficaz para produzir verdadeira convicção religiosa. Para Locke, a tolerância não era apenas compatível com o cristianismo, mas também com a própria razão, sendo vantajosa para a convivência humana. Montesquieu adicionou uma distinção fundamental: tolerar não é o mesmo que aprovar. Ele defendia que uma sociedade pode permitir diferentes visões de mundo sem endossá-las, desde que a tolerância seja recíproca entre os grupos. Já Voltaire, motivado pelo caso de Jean Calas, um protestante injustamente executado, denunciou a intolerância religiosa e conclamou a humanidade à tolerância, mesmo reconhecendo avanços em seu tempo.

Desafios do século XX: o paradoxo e a crítica à tolerância

O século XX trouxe novos contornos ao debate sobre a tolerância, especialmente com a ascensão de regimes totalitários como o bolchevismo, o fascismo e o nazismo, que se caracterizaram por uma profunda intolerância a dissidentes políticos, minorias étnicas e outras crenças. Em resposta a esses horrores, Karl Popper formulou o célebre Paradoxo da Tolerância: uma sociedade que tolera irrestritamente os intolerantes corre o risco de ser destruída por eles, perdendo sua própria capacidade de tolerar.

Popper, contudo, ressaltou que a simples manifestação de ideias intolerantes não deve ser suprimida enquanto puder ser enfrentada pela argumentação racional. O problema surge quando há incitação à perseguição e à violência, o que, para ele, já não é mais uma questão de opinião, mas de ação criminosa. Em um contexto de Guerra Fria e intensas transformações sociais nas décadas de 1960 e 1970, Herbert Marcuse apresentou uma crítica à “tolerância repressiva”, argumentando que o que se apresenta como tolerância pode, na prática, servir para manter a opressão. Ele propôs uma “tolerância libertadora”, que implicaria intolerância contra movimentos de direita e tolerância para com movimentos de esquerda, uma formulação explicitamente política do conceito.

Essas abordagens, embora críticas, não rejeitam a tolerância em si, mas alertam para seus usos e interpretações. Tanto Popper quanto Marcuse, e até mesmo Aristóteles, apontam para a existência de coisas inaceitáveis – seja a intolerância e a violência, os movimentos que perpetuam a injustiça ou as formas evidentes de mal.

Distinguindo o inaceitável do tolerável na convivência social

A complexidade da tolerância reside em traçar uma linha clara entre aquilo que não pode ser aceito – por ser objetivamente errado, antiético ou criminoso no plano da vida civil e social – e aquilo que deve ser tolerado, por fazer parte das escolhas individuais legítimas. Essa distinção é fundamental para a manutenção de uma sociedade justa e livre.

Conforme formulado por John Stuart Mill, a sociedade só deve interferir na conduta de alguém quando ela afeta terceiros. Naquilo que diz respeito apenas ao próprio indivíduo – sobre seu corpo e sua mente –, sua liberdade deve ser soberana. É nesse espaço que a tolerância ganha seu verdadeiro sentido, permitindo a diversidade de pensamentos e estilos de vida sem que isso signifique a aprovação de condutas que violem os direitos ou a dignidade alheia.

Não se trata de enfraquecer o conceito de tolerância, mas de fortalecê-lo ao dissociá-lo da passividade. A tolerância é uma virtude ativa, que exige coragem para defender o direito à diferença e para discernir os limites éticos da convivência. É uma escolha consciente que promove o respeito e a paz em um mundo naturalmente diverso.

Para aprofundar-se nos fundamentos filosóficos da tolerância, você pode consultar a Stanford Encyclopedia of Philosophy. Continue acompanhando o Diário Global para análises aprofundadas e contextualizadas sobre temas que moldam nossa sociedade, com o compromisso de oferecer informação relevante e de qualidade.

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