O cenário na fronteira de Torkham, conhecida como “Ponto Zero”, revela uma das maiores tragédias humanitárias da atualidade. Milhares de famílias, muitas das quais nunca pisaram em solo afegão, cruzam a divisa carregando apenas o que conseguem carregar, forçadas a um retorno compulsório imposto pelo Paquistão e pelo Irã. O fluxo, que já soma seis milhões de pessoas nos últimos três anos, coloca o Afeganistão diante de um desafio social e econômico sem precedentes sob o regime do Talibã.
O drama de quem nunca viveu no próprio país
Para muitos deportados, o retorno ao Afeganistão não é um reencontro com a terra natal, mas um exílio forçado em um território desconhecido. Nazia, de 35 anos, exemplifica essa angústia. Nascida no Paquistão, ela foi obrigada a deixar a única casa que conheceu para enfrentar a incerteza em um país onde a escassez de recursos é a regra. “Nunca estive no Afeganistão, e muita gente aqui não tem nem pão suficiente para comer”, relata.
O movimento migratório, que ocorre em uma escala nunca antes vista na história recente, é agravado pela precariedade das estruturas de acolhimento. A ONU e organizações humanitárias montaram acampamentos improvisados com lonas e plásticos, mas as condições são desoladoras. O calor extremo, que chega a 41°C, torna a sobrevivência diária uma batalha exaustiva para crianças e idosos que chegam exaustos da travessia.
Tensões geopolíticas e o endurecimento das fronteiras
As deportações em massa são reflexo de uma mudança drástica na política externa de vizinhos do Afeganistão. Tanto o Paquistão quanto o Irã justificam as expulsões alegando preocupações com a segurança nacional e o peso econômico da presença de milhões de imigrantes sem documentação. No caso iraniano, o clima de desconfiança intensificou-se após conflitos regionais em junho de 2025, com autoridades locais chegando a rotular afegãos como potenciais espiões.
Organizações como a Human Rights Watch denunciaram abusos sistemáticos, incluindo operações de busca em residências durante a madrugada e prisões arbitrárias. Embora o governo paquistanês negue o assédio generalizado, classificando eventuais episódios como casos isolados, os relatos de quem atravessa a fronteira descrevem um ambiente de hostilidade e medo constante, que culmina no abandono forçado de vidas construídas ao longo de décadas.
O futuro incerto sob o regime do Talibã
Além da falta de infraestrutura básica, o retorno impõe um desafio cultural e social profundo, especialmente para mulheres e meninas. Sob o governo do Talibã, o acesso à educação e a participação na vida pública foram severamente restringidos. Zarina, uma das recém-chegadas, expressa o temor compartilhado por milhares de mães: “Olhe para elas, são todas meninas. É claro que estou preocupada”.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) continua a defender que qualquer repatriação deve seguir princípios de dignidade e segurança, critérios que, na prática, têm sido ignorados. Enquanto o mundo observa, o Afeganistão tenta absorver uma população equivalente a um país pequeno, sem que haja, até o momento, sinais de que a política de expulsões dos países vizinhos esteja próxima de um desfecho.
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