Digitalização de livros: gigante de IA destrói obras e reacende debate sobre patrimônio

Digitalização de livros: gigante de IA destrói obras e reacende debate sobre patrimônio

Últimas Notícias

A busca incessante por dados para alimentar a inteligência artificial (IA) tem levado a práticas controversas, e uma delas, revelada recentemente, chocou o mundo editorial e cultural. A Anthropic, uma das gigantes do setor de IA e criadora do assistente Claude, foi flagrada em documentos internos com um projeto ambicioso e destrutivo: a digitalização em massa de livros físicos, que são literalmente desmanchados após o escaneamento para servir de “combustível” linguístico para suas máquinas.

Essa revelação, que veio à tona através de um processo judicial por direitos autorais, expõe a complexa relação entre o avanço tecnológico e a preservação do patrimônio cultural. Enquanto a IA promete organizar e disponibilizar o conhecimento humano, o método empregado pela Anthropic levanta sérias questões sobre o valor intrínseco do livro como objeto e a ética por trás da destruição de milhões de exemplares.

A Mecânica da Digitalização Destrutiva e o Projeto Panamá

O processo da Anthropic, detalhado em documentos internos, é metódico e alarmante. Sob o comando de Tom Turvey, um ex-executivo do Google Books, a empresa implementou o que chamou de Projeto Panamá. Este esforço visava digitalizar destrutivamente todos os livros do mundo, um objetivo ambicioso que envolvia a compra de milhões de exemplares usados no mercado comum.

A operação consistia em adquirir os livros, arrancar suas lombadas, passar as folhas soltas por scanners de alta velocidade e, em seguida, enviar o que restava para a reciclagem. A preferência era por obras anteriores a 2022, para evitar textos gerados por máquinas que pudessem “contaminar” o treinamento da IA. Livreiros de todo o mundo começaram a notar um padrão incomum: pedidos massivos, sem distinção de assunto ou sensibilidade a preço, indicando uma operação em larga escala. A destruição das obras físicas era parte integrante do processo, justificada pela maior rapidez e menor esforço em comparação com os métodos tradicionais de digitalização.

O Embate Legal e a Decisão Judicial sobre Fair Use

A prática da Anthropic veio à tona no caso judicial Bartz contra Anthropic. Em 2025, o juiz federal americano William Alsup proferiu uma decisão que concedeu uma vitória parcial à empresa. Ele considerou que comprar, escanear e destruir um livro legalmente adquirido para treinar um modelo de IA constitui “uso transformador” e, portanto, “uso legítimo” (fair use) sob a lei de direitos autorais.

O raciocínio do juiz foi peculiar: como a cópia digital apenas substituía a física, que era destruída, não haveria duplicação nem redistribuição, e uma coisa simplesmente tomava o lugar da outra. Analistas de política tecnológica apontaram a ironia perversa desse argumento, pois ele criaria um incentivo para a destruição do exemplar físico, já que mantê-lo poderia enfraquecer a defesa legal. A preservação, nesse contexto, se transformaria em um risco jurídico.

No entanto, a Anthropic não saiu ilesa de todas as acusações. A empresa perdeu uma parte significativa do processo por ter baixado cerca de sete milhões de obras piratas de bibliotecas clandestinas antes de iniciar a compra de livros. Por essa infração, e não pela trituração, a companhia fechou um acordo de 1,5 bilhão de dólares com os autores, um dos maiores já registrados em disputas relacionadas a dados de treinamento de IA.

A Reação do Mundo Literário e Preservacionista

A revelação da prática da Anthropic gerou uma onda de horror e indignação entre livreiros, bibliotecários e preservacionistas. Um livreiro holandês chegou a classificar a ação como “uma espécie de barbárie”. Na imprensa e nas redes sociais, as comparações foram drásticas, evocando a queima da Biblioteca de Alexandria e as fogueiras de livros de Fahrenheit 451.

Especialistas em preservação cultural enfatizam que um livro vai muito além de seu texto. Uma primeira edição, anotações manuscritas, dedicatórias e a própria encadernação carregam um valor histórico e afetivo que nenhum scanner é capaz de capturar. A destruição do último exemplar físico de um título esgotado significa a perda irreversível de um objeto cultural, mesmo que seu conteúdo sobreviva em formato digital.

O Acesso ao Conhecimento e a Fronteira da Preservação

Outro ponto de discórdia reside no acesso ao conhecimento. Enquanto o Google Books, que também digitalizou milhões de obras nos anos 2000, criou um índice público e pesquisável, o acervo montado pela Anthropic é privado e inacessível a leitores, bibliotecas e aos próprios autores. Isso levanta a questão de quem realmente se beneficia dessa massiva digitalização de livros.

A Anthropic, por sua vez, contesta parte dessa interpretação. Em nota, a empresa afirma que a compra de livros para treinar modelos é uma prática comum na indústria e que nenhum de seus programas “compra e destrói livros raros ou antiquários”, apenas exemplares de mercados comerciais correntes. A companhia também ressalta que a decisão do juiz Alsup, que classificou o treinamento como uso legítimo, permanece válida, e que a polêmica atual confunde a trituração com o acordo sobre os livros piratas.

Contudo, documentos do processo revelam um executivo da empresa escrevendo a um vendedor que “livros menos comuns são um ótimo ponto de partida”, e a busca por obras em outras línguas sugere que a fronteira entre o “livro menos comum” e o “livro raro” é tênue, gerando apreensão entre os livreiros. No cerne da discórdia, está a própria definição de um livro: se é apenas um recipiente de informação, a digitalização e trituração seriam uma mera troca de embalagem. Mas se é também um objeto, um elo material com sua história e seus leitores, cada lombada cortada apaga um pedaço de uma herança insubstituível.

A diferença entre o papel e o arquivo digital também reside no acesso. O impresso é imutável e independente para ser lido. O digital, por outro lado, pode ser alterado, retirado do ar e depende de assinaturas. A indústria que promete guardar todo o conhecimento humano está, para isso, desmontando os volumes em que esse conhecimento foi confiado ao papel. As máquinas aprenderam a escrever lendo tudo o que escrevemos. Resta saber o que faremos com o que elas deixaram para trás.

Para continuar acompanhando as notícias mais relevantes, atuais e contextualizadas sobre tecnologia, cultura e os impactos da inteligência artificial em nosso dia a dia, mantenha-se conectado ao Diário Global. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade que importa para você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *