Vinte e cinco anos após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que chocaram o mundo e foram qualificados pelo governo dos Estados Unidos como o “mais grave ato criminoso ocorrido em solo americano na história moderna”, a justiça para as quase 3.000 vítimas ainda parece um horizonte distante. O julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, o suposto mentor dos atentados, e de outros acusados, permanece em um limbo jurídico, arrastando-se em audiências preliminares na base naval de Guantánamo, em Cuba, e prolongando a dor e a angústia dos familiares.
A espera por um veredito final tem sido uma provação excruciante. Para muitos, a esperança de ver os responsáveis condenados se esvai com o passar do tempo, gerando um temor crescente de que a solução judicial não chegue a tempo para aqueles que mais anseiam por ela. A complexidade do caso, marcada por disputas legais e a perda de provas cruciais, tem transformado o que deveria ser um processo de reparação em uma fonte contínua de sofrimento.
A longa espera por justiça em Guantánamo
A base naval de Guantánamo, no sudeste de Cuba, tornou-se um símbolo da “guerra ao terrorismo” que se seguiu aos atentados. Foi ali que uma prisão militar foi instalada, e onde Khalid Sheikh Mohammed (KSM) permanece detido há 20 anos, sem nunca ter sido condenado. O processo judicial, descrito por familiares como “árduo e tedioso”, tem sido presidido por cinco juízes militares diferentes ao longo das décadas, refletindo a sua natureza intrincada e os inúmeros obstáculos.
Tom Resta, cujo irmão John e a esposa Sylvia (grávida de sete meses) estavam entre as vítimas que trabalhavam no 92º andar da Torre Norte do World Trade Center, expressa a profundidade de sua dor. “Depois de tanto tempo, ainda tenho um nó na garganta”, declarou Resta à BBC, visivelmente emocionado. Ele conta que o 11 de Setembro permanece em sua mente “de forma quase constante”, mesmo após um quarto de século. Resta viajou quatro vezes a Guantánamo para acompanhar as audiências preliminares, testemunhando em primeira mão a lentidão do sistema.
Recentemente, a data do julgamento de Mohammed foi marcada para junho de 2028. No entanto, a notícia foi recebida com ceticismo. Resta, por exemplo, já se prepara para novos atrasos. O tempo é um fator cruel: “Meu pai irá completar 98 anos em novembro e não acredito que ele espere chegar a ver o julgamento”, lamenta. Muitos outros familiares compartilham o mesmo receio, temendo que seus entes queridos não vivam o suficiente para presenciar o desfecho.
Khalid Sheikh Mohammed e as acusações de terrorismo
Khalid Sheikh Mohammed é acusado de crimes graves, incluindo conspiração e assassinato de 2.976 vítimas. Ele é apontado como o idealizador do plano de treinar pilotos para lançar aviões comerciais contra edifícios, uma ideia que teria sido apresentada ao então líder do grupo extremista islâmico al-Qaeda, Osama bin Laden. Em ocasiões anteriores, o próprio KSM afirmou ter planejado a “operação do 11 de Setembro, de A até Z”, uma declaração que, se comprovada em um julgamento justo, o colocaria no centro da maior tragédia terrorista em solo americano.
Apesar da gravidade das acusações e da confissão do próprio acusado, o caminho para a condenação tem sido tortuoso. A complexidade do caso não reside apenas na magnitude dos crimes, mas também nas controvérsias que cercam a forma como as informações foram obtidas e o processo legal conduzido. A busca por justiça, neste contexto, esbarra em questões éticas e legais profundas que desafiam a integridade do sistema judicial.
O impacto da tortura no processo judicial
Um dos maiores entraves para o avanço do julgamento do 11 de Setembro é a questão da tortura. Dias após a definição da data de 2028, o juiz militar responsável pelo caso desconsiderou as confissões feitas por Mohammed aos agentes do FBI em Guantánamo. A decisão foi baseada na constatação de que as confissões não foram voluntárias, pois foram obtidas após KSM ter sido transferido de prisões secretas da CIA, onde foi submetido a “extraordinário abuso físico e mental”.
Especialistas em direito internacional, como a professora Kasey McCall-Smith, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, são categóricos ao afirmar que a tortura a que Mohammed e seus supostos cúmplices foram submetidos é a principal causa dos prolongados atrasos. “Todos os aspectos do caso foram litigados em torno da questão da tortura”, explica McCall-Smith, destacando que os acusados foram submetidos a “anos de abusos”, incluindo técnicas como o afogamento simulado (waterboarding) e posições de estresse. Essa controvérsia sobre a tortura não apenas compromete a validade das provas, mas também levanta sérias questões sobre os direitos humanos e a ética na luta contra o terrorismo, prolongando a espera por um desfecho justo e legítimo.
Guantánamo: um legado controverso e a busca por encerramento
O caso do 11 de Setembro e o julgamento de seus supostos mentores em Guantánamo representam um capítulo complexo na história jurídica e política dos Estados Unidos. A instalação da prisão militar e as comissões militares ali estabelecidas foram criadas em um contexto de emergência nacional, mas rapidamente se tornaram alvo de críticas internacionais e nacionais devido à sua falta de transparência, aos atrasos processuais e às alegações de violações de direitos humanos. A professora McCall-Smith ressalta que o tratamento dispensado aos detentos não apenas atrasou o processo, mas também manchou a reputação dos EUA como defensores do devido processo legal.
Para as famílias das vítimas, como Stephan Gerhardt, que perdeu seu irmão mais novo, Ralph, a busca por uma condenação é fundamental. Gerhardt, que já fez seis viagens a Guantánamo, expressa sua “maior preocupação” de que Mohammed e seus cúmplices morram sem serem condenados. “Não quero que eles morram sem terem sido condenados, pois seria uma injustiça com todos os familiares”, afirma. A necessidade de um encerramento, de poder finalmente virar a página e focar nas boas recordações, é um anseio compartilhado por muitos, mas que a lentidão da justiça em Guantánamo continua a adiar.
A história do 11 de Setembro e a saga judicial que se seguiu servem como um lembrete doloroso dos desafios em conciliar segurança nacional, justiça e direitos humanos. Enquanto o mundo se aproxima de um quarto de século desde a tragédia, a agonia das famílias permanece, um testemunho da complexidade e das consequências duradouras de um dos eventos mais marcantes da história moderna. O Diário Global continuará acompanhando de perto os desdobramentos deste caso, oferecendo informação relevante e contextualizada para que nossos leitores compreendam a profundidade e a importância desses eventos.

