O cenário do glaucoma no sistema público
O monitoramento da saúde ocular no Brasil aponta um movimento ambivalente. Dados recentes do Sistema Único de Saúde (SUS), compilados pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), revelam que o volume de exames específicos para a detecção do glaucoma cresceu 64,8% entre 2019 e 2025. O levantamento considera procedimentos cruciais para o diagnóstico, como a campimetria, a curva diária de pressão ocular, a gonioscopia e o teste provocativo.
Apesar da alta expressiva no período, o cenário não é linear. O sistema sofreu uma retração de 20,7% entre 2019 e 2020, período marcado pelo impacto severo da pandemia de Covid-19, que paralisou atendimentos eletivos em todo o país. A recuperação posterior, embora robusta, esbarra em disparidades regionais que revelam a dificuldade de acesso equitativo à saúde especializada em um país de dimensões continentais.
Disparidades regionais e o desafio do acesso
A análise geográfica dos dados expõe um abismo na oferta de serviços. Enquanto o Sudeste lidera a expansão com um aumento de 114,6% no número de exames, regiões como o Nordeste e o Sul apresentaram crescimentos significativamente menores, de 35,5% e 37,4%, respectivamente. A variação entre estados é ainda mais acentuada: unidades da federação como Rondônia, Tocantins, Distrito Federal e Rio de Janeiro registraram as maiores variações positivas, enquanto Roraima, Piauí, Ceará, Alagoas e Sergipe enfrentaram quedas no volume de atendimentos.
Quando os números são ponderados pela população acima de 40 anos — faixa etária de maior risco para a patologia —, o Brasil elevou a taxa de 1.703 exames por 100 mil habitantes em 2019 para 2.452 em 2025. O Sul desponta como a região com a maior cobertura proporcional, atingindo 3.561 exames por 100 mil habitantes, enquanto o Centro-Oeste permanece abaixo da média nacional, com 1.246. Pernambuco destaca-se positivamente no cenário estadual, enquanto o Amapá registra a menor taxa, evidenciando a necessidade de políticas públicas focadas em regiões com maior vulnerabilidade assistencial.
Cirurgias e a persistência do diagnóstico tardio
O aumento no volume de exames reflete-se, em parte, no incremento das intervenções cirúrgicas. O país registrou uma alta de 64,77% nas operações de glaucoma no mesmo intervalo de seis anos. Em 2025, São Paulo e Pernambuco consolidaram-se como os estados com maior volume de procedimentos, enquanto Amapá e Mato Grosso realizaram números reduzidos, com apenas três e 22 cirurgias, respectivamente.
O grande entrave, contudo, permanece sendo o diagnóstico tardio. O glaucoma, conhecido como uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo, é uma doença silenciosa que exige detecção precoce para a preservação da visão. Especialistas alertam que o aumento de exames não elimina, por si só, a barreira das filas de espera para o tratamento contínuo.
O futuro do cuidado oftalmológico no SUS
Para Maria Auxiliadora Frazão, presidente do CBO, os números indicam um caminho de progresso, mas que exige cautela. O desafio atual não se resume apenas a diagnosticar, mas a garantir o fluxo de tratamento para pacientes que, muitas vezes, chegam ao sistema com a doença em estágio avançado. A demanda reprimida, agravada pelo período pandêmico, ainda pressiona as unidades de saúde.
A estratégia defendida pelo setor envolve a integração da oftalmologia na atenção básica, permitindo que a triagem ocorra antes do agravamento do quadro clínico. O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos das políticas públicas de saúde e os impactos do acesso ao tratamento especializado para a população brasileira. Continue conosco para se manter informado sobre as atualizações que afetam o bem-estar e a qualidade de vida em todo o país.
Para mais informações sobre o panorama da saúde no Brasil, consulte o portal oficial do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.
