O debate eleitoral profundo, essencial para a vitalidade democrática, nunca foi uma tarefa simples em sociedades de massa, especialmente naquelas marcadas por profundas desigualdades e diversidades. A busca incessante por votos frequentemente abre as portas para a demagogia e a desinformação, onde a ideia de “fair-play” parece um luxo para os perdedores.
Nesse cenário, o ideal de eleições “livres e justas”, nas quais os cidadãos se informam e fazem escolhas autônomas, muitas vezes se mostra inflacionado. A sociedade, então, se contenta com a regulação das campanhas, a contagem fidedigna dos votos e a regularidade formal do processo, sem, contudo, aprofundar-se nas questões estruturais que moldam o cenário político.
A Complexidade do Debate Eleitoral em Democracias Modernas
A frustração crescente com a insegurança material que as democracias têm entregado, aliada a um ambiente informacional cada vez mais dominado por plataformas digitais “pluto-algorítmicas”, tem amplificado as dissonâncias cognitivas. O medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas ganham força, descolando o voto de fatos concretos, da análise comparativa de políticas públicas e das respostas reais para angústias sociais.
Essa dinâmica complexa dificulta a percepção clara dos desafios. Em vez de um engajamento racional com propostas e diagnósticos, observa-se uma polarização alimentada por narrativas simplistas e emocionais, que obscurecem a compreensão das verdadeiras causas das aflições coletivas e a dimensão dos desafios que se apresentam.
A Metáfora da Grande Ficha: Um Alerta Atemporal
Em meio aos protestos de junho de 2013, a cartunista Laerte publicou uma tira icônica: “A Grande Ficha. Em algum momento… ela vai cair”. Anos depois, em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19, a artista reforçou a mensagem nas redes sociais: “A Ficha caiu porraaaa!!!” Essa metáfora poderosa expressa a inabilidade humana para compreender, senão tardiamente, a origem de nossas aflições e a magnitude dos desafios coletivos.
A “Grande Ficha” simboliza a percepção tardia de uma realidade incômoda ou de um perigo iminente. Ela demora a cair, e sua clareza é, muitas vezes, mais evidente em retrospectiva. Foi mais fácil, por exemplo, em 2022, reconhecer os temores que já pairavam em 2018, evidenciando como a sociedade frequentemente só compreende a gravidade de uma situação quando suas consequências já são palpáveis.
Múltiplas Frentes de Pressão sobre a Democracia
A continuidade da democracia, em diversos países, incluindo o Brasil, está sob pressão de múltiplas frentes. A desigualdade social e econômica persistente, a crise climática global, a expansão do crime organizado e as tensões militares internacionais são apenas alguns dos fatores que corroem a estabilidade democrática. Além disso, a crescente influência do poder corporativo sobre o poder político e a apropriação privada do bem comum contribuem para o definhamento das capacidades estatais, essenciais para a proteção e o bem-estar da população.
É fundamental compreender que projetos autocráticos não surgem do vácuo. Eles se alimentam dessas fragilidades e insatisfações, prometendo soluções rápidas e simplistas para problemas complexos, muitas vezes à custa das liberdades individuais e das instituições democráticas. A “Grande Ficha” continua a mostrar que esses riscos são interconectados e exigem uma análise aprofundada para serem enfrentados.
O Projeto Autocrático e a Renúncia ao Interesse Nacional
Em um cenário eleitoral, é comum que nenhuma candidatura apresente vocação ou capacidade para entregar um país à altura das promessas constitucionais ou dos problemas existentes. Nenhuma, talvez, seja capaz de salvar a democracia de todos os seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica. No entanto, o professor Conrado Hübner Mendes destaca que apenas uma candidatura específica pode estar oficialmente inscrita em um projeto global de autocratização.
Esse tipo de projeto, segundo Mendes, combate a liberdade individual, profissional e econômica, e busca retirar do Estado até mesmo os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Ele visa minar as competências necessárias para viabilizar um livre-mercado de ideias, bens e serviços, transformando a institucionalidade pública em um obstáculo. A ordem pública torna-se adversária, e o servidor público imparcial, o jornalista, o cientista, o professor e o juiz íntegro são vistos como inimigos.
Uma candidatura com tal perfil propõe um país que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, bem como à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Trata-se de uma autocratização de tipo subalterno, onde sequer a ideia de interesse nacional encontra espaço. Esse modelo se compromete com a privatização do futuro, sequestrando qualquer projeto coletivo para contratar um futuro oligárquico, beneficiando poucos em detrimento da maioria. Para mais informações sobre os desafios da democracia contemporânea, consulte o portal da Faculdade de Direito da USP.
A Urgência da Percepção Coletiva e a Construção do Futuro
Diante desse quadro, a “Grande Ficha” precisa, de fato, cair. A questão central não é se ela cairá, mas o quão tarde isso acontecerá e qual será o grau de destruição e sofrimento necessários para que a gravidade do erro seja plenamente percebida. A sociedade precisa se questionar se será capaz de reconhecer sua cumplicidade em certos processos e, a partir daí, elaborar uma visão alternativa de futuro.
Os futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados. Eles são construídos pelas escolhas e pela percepção coletiva do presente. A reflexão proposta por Conrado Hübner Mendes serve como um chamado à ação, instigando a um olhar mais crítico e engajado sobre os rumos da política e da sociedade.
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