Uma reportagem da revista piauí, publicada nesta quarta-feira (23), trouxe à tona detalhes sobre uma viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, dos Estados Unidos para o Brasil em janeiro de 2025. O voo, realizado em um jato executivo, levanta uma série de questionamentos devido às conexões da aeronave com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e, notavelmente, por ser o mesmo avião utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), meses depois.
A revelação se insere em um cenário de intensa polarização política e investigações em curso, adicionando uma nova camada de complexidade às relações entre figuras públicas, empresários e o poder judiciário. A apuração da piauí, que cruzou dados de tráfego aéreo e registros aeronáuticos, detalha não apenas a rota, mas também a estrutura de propriedade do avião, que envolveu empresas e indivíduos investigados em outros casos.
Aeronave e os elos com o ex-banqueiro
O jato em questão é um Legacy 650, de prefixo PP-NLR. Segundo a revista piauí, a aeronave tinha entre seus cotistas uma empresa da qual Daniel Vorcaro, ex-banqueiro, era sócio. A propriedade formal do avião estava sob a Fraction 024, cujo capital era dividido em três partes iguais. Uma dessas partes pertencia ao advogado e empresário Willer Tomaz, outra a Laércio Cosentino, fundador da TOTVS, e a terceira foi adquirida pela Prime You no final de 2024.
É importante destacar que Daniel Vorcaro foi sócio da Prime You de 2021 até setembro de 2025, conforme dados empresariais citados pela reportagem. Essa ligação temporal posiciona a viagem de Flávio Bolsonaro dentro do período em que Vorcaro tinha participação na empresa cotista do avião. A mesma aeronave ganhou notoriedade em agosto de 2025, quando o ministro Alexandre de Moraes foi filmado desembarcando dela, um fato inicialmente divulgado pelo jornal O Globo e que gerou repercussão na época.
Repercussão política e pedidos de investigação
A utilização do mesmo jato por figuras tão distintas e politicamente antagônicas gerou um ruidoso debate. Após a divulgação do vídeo de Moraes, Flávio Bolsonaro criticou publicamente o ministro nas redes sociais, afirmando que “Moraes é o principal responsável por Lula voltar à cena do crime”. A nova reportagem, ao conectar Flávio à mesma aeronave, adiciona um novo elemento a essa discussão.
Nesta quarta-feira (23), a campanha de Flávio Bolsonaro protocolou um pedido junto ao ministro André Mendonça, do STF, para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seja investigado. A suspeita levantada seria de que Lula teria atuado em favor de Daniel Vorcaro. A Presidência da República, por sua vez, negou veementemente as acusações, afirmando que o presidente não recebeu presentes nem enviou recados ao ex-banqueiro, refutando qualquer insinuação de irregularidade.
Detalhes da viagem e o inquérito do INSS
A viagem de Flávio Bolsonaro ocorreu em 19 de janeiro de 2025, um dia antes da posse de Donald Trump nos Estados Unidos. A informação sobre o trajeto entre Fort Lauderdale, na Flórida, e Brasília foi inicialmente revelada por O Globo na semana passada. O jornal indicou que a Polícia Federal localizou os registros desse voo durante uma investigação sobre fraudes no INSS, o que adiciona um contexto de apuração criminal à movimentação.
A bordo do jato, além do senador, estavam sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas do casal. O advogado e empresário Willer Tomaz, que também é investigado no mesmo caso de fraudes no INSS, acompanhava o grupo. A presença de Tomaz, um dos cotistas da aeronave, e a conexão com a investigação da Polícia Federal, sublinham a complexidade do cenário e a intersecção entre política, negócios e justiça.
Conexão com o financiamento do filme “Dark Horse”
A reportagem da piauí destaca que a viagem de Flávio Bolsonaro em janeiro de 2025 coincidiu com um período crucial nas negociações para o financiamento de “Dark Horse”, um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador. Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro com elos na propriedade do jato, foi o responsável por injetar ao menos R$ 65 milhões no projeto, conforme revelado anteriormente pelo Intercept Brasil e pela própria piauí.
Atualmente, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado pelo STF no inquérito que apura o financiamento desse longa-metragem. O cronograma de pagamentos para o filme previa um primeiro repasse de US$ 2 milhões em 20 de janeiro de 2025, ou seja, apenas um dia após o voo de Flávio dos EUA para o Brasil. Essa proximidade temporal entre a viagem, a presença de Vorcaro na estrutura da aeronave e o início dos pagamentos do filme sugere uma teia de relações que segue sob o escrutínio das autoridades e da imprensa.
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