Cooperativas do agronegócio investem em industrialização da soja para mitigar riscos

Cooperativas do agronegócio investem em industrialização da soja para mitigar riscos

Últimas Notícias

Em um movimento que redefine a dinâmica do agronegócio brasileiro, cooperativas têm protagonizado uma série de investimentos bilionários na industrialização da soja. O caso mais recente e emblemático é a aquisição da esmagadora de soja da multinacional Louis Dreyfus Company (LDC) em Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, por um consórcio de sete cooperativas lideradas pela Frísia Cooperativa Agroindustrial. A transação, cujo valor não foi divulgado, mas que, somado ao capital de giro, alcança cerca de R$ 1,4 bilhão, representa um dos maiores investimentos em intercooperação já realizados no país.

Essa investida não é um fato isolado. Nos últimos dois anos, o setor cooperativista tem direcionado capital significativo para novas plantas de esmagamento, focando na extração de óleo degomado e na produção de biodiesel, principalmente nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil. Tal estratégia visa não apenas agregar valor à produção primária, mas também blindar os produtores contra a volatilidade inerente ao mercado de commodities.

Expansão Estratégica e Bilionária no Setor

A ofensiva das cooperativas no processamento da soja é um fenômeno de larga escala. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Cotrijal, Cotrisal e Cotripal uniram forças no projeto Soli3, um investimento de R$ 1,25 bilhão em Cruz Alta, com previsão de iniciar a produção de óleo degomado, biodiesel, glicerina e farelo a partir de 2028. Em Goiás, a Comigo constrói uma esmagadora de R$ 1,5 bilhão em Palmeira de Goiás, visando dobrar sua capacidade e fortalecer sua posição no mercado de biodiesel.

Outros exemplos incluem a Coamo, maior cooperativa agropecuária do país, que investe R$ 480 milhões em uma planta de biodiesel em Paranaguá (PR); a Cooperalfa, do sistema Aurora, com R$ 230 milhões para uma usina de biodiesel em Chapecó (SC); e a Cocamar, que aplica R$ 750 milhões em uma nova esmagadora em Maringá (PR), também com foco no biodiesel. Todos esses projetos são impulsionados pela expectativa de expansão do mandato de mistura obrigatória de biodiesel no diesel, que deve subir de 15% para 20% até 2030.

O Poder da Intercooperação e a Lógica do Negócio

A aquisição da planta da LDC em Ponta Grossa, agora rebatizada de Esmagadora Campos Gerais, foi viabilizada pela união de forças entre cooperativas menores, um princípio fundamental do cooperativismo conhecido como intercooperação. Esse modelo já demonstrou sucesso em casos como a Aurora Coop, Frimesa e Cotriguaçu. O complexo adquirido ocupa 58 hectares e possui uma capacidade estática de armazenamento de 300 mil toneladas de grãos, além de uma estrutura industrial completa para extração e beneficiamento.

A decisão da Louis Dreyfus de vender a unidade é vista por especialistas como parte de uma estratégia global de tradings que tendem a concentrar investimentos em logística, como portos e terminais, desinvestindo em ativos industriais. A LDC, em nota, afirmou que a revisão de portfólio é natural e que a venda permite concentrar esforços em outras instalações e na ampliação de sua presença logística, como a conquista de um terminal no Porto de Paranaguá em 2025.

Para as cooperativas, a compra é estratégica. Com 57 mil associados, as sete cooperativas envolvidas (Agrária, Capal, Coasul, Integrada, Castrolanda, Bom Jesus e Frísia) buscam capturar uma maior fatia de valor na cadeia da soja, estimada entre 1,5% e 2% da margem produtiva. A fidelidade dos cooperados na originação de grãos, um desafio para tradings sem forte presença local, é um diferencial. Além disso, a produção de farelo, que representa a maior parte do grão (70% a 75% da matéria-prima do biodiesel nacional), é amplamente utilizada na suinocultura e pecuária leiteira dos próprios cooperados, fechando um ciclo econômico virtuoso.

Tendências de Mercado e Desafios de Governança

Daniel Vargas, professor de Economia da FGV, destaca que a diversificação em produtos como o biodiesel oferece um “escudo natural” contra as oscilações do mercado. Se o preço da energia sobe, mais biodiesel é produzido; se o preço da comida aumenta, mais para proteína; se o farelo está mais caro, mais para ração. Essa flexibilidade permite às cooperativas controlar o “tempo” de compra e venda das commodities, evitando vender no pico da safra, quando os preços tendem a cair. Essa tendência de cooperativas ocupando novos espaços já é observada em países como Holanda e EUA.

A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) saúda o engajamento das cooperativas no esmagamento de grãos. Segundo André Nassar, presidente da Abiove, mais companhias defendendo a necessidade de esmagar mais soja significa maior agregação de valor e um impulso para os biocombustíveis, que são um vetor econômico crucial para o setor. Acompanhe as notícias e análises da Abiove sobre o setor.

Um dos maiores desafios dessa intercooperação histórica reside na gestão. Administrar um negócio com sete “donos” que representam 57 mil cooperados, com perfis e interesses diversos, exige uma governança robusta. Eduardo Damião, professor da PUC-PR, enfatiza a necessidade de transformar interesses individuais em uma estratégia coletiva, criando um modelo que harmonize relações e maximize resultados. Mario Dykstra, da Frísia, assegura que o modelo de governança, com um representante e o CEO de cada cooperativa no conselho diretivo, já se mostrou eficiente em outras intercooperações bem-sucedidas da cooperativa.

A expansão das cooperativas na industrialização da soja representa um marco para o agronegócio brasileiro, fortalecendo a cadeia produtiva, mitigando riscos e posicionando o setor para as demandas futuras de energia e alimentos. O Diário Global continuará acompanhando de perto os desdobramentos dessa estratégia, trazendo análises aprofundadas e informações relevantes sobre economia, agronegócio e as tendências que moldam o futuro do país e do mundo. Mantenha-se informado com nosso conteúdo de qualidade e credibilidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *