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Pressão chinesa leva Zâmbia a cancelar conferência global de direitos digitais

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O impacto da influência geopolítica em eventos globais

A realização da RightsCon, considerada a maior conferência global sobre direitos digitais, foi abruptamente interrompida em 2026, gerando um debate sobre os limites da soberania nacional diante de pressões externas. O evento, que estava programado para ocorrer em Lusaca, capital da Zâmbia, foi cancelado após uma série de intervenções atribuídas ao governo chinês. A organização responsável, a Access Now, denunciou que Pequim teria exercido forte influência sobre as autoridades zambianas para impedir a participação de representantes de Taiwan.

O encontro deveria reunir cerca de 2.600 participantes presenciais e outros 1.100 via internet, vindos de 150 países e 750 instituições. A pauta era sensível para o governo chinês, incluindo painéis sobre a exportação de tecnologias de vigilância, desinformação no continente africano e ciberataques frequentemente associados a atores estatais de Pequim. A situação escalou rapidamente quando oficiais de imigração zambianos começaram a notificar os participantes sobre o cancelamento, culminando em um anúncio oficial via mídia estatal na noite de 28 de abril.

Dependência econômica como ferramenta de interferência

Especialistas apontam que o episódio ilustra como a profunda dependência financeira de nações africanas em relação à China pode comprometer a liberdade de debate em fóruns internacionais. A Zâmbia mantém laços econômicos estreitos com Pequim, que atua como seu principal credor. Apenas dias antes do cancelamento, a Agência de Desenvolvimento zambiana havia formalizado um acordo de US$ 1,5 bilhão com uma estatal chinesa para projetos de infraestrutura energética.

Além do peso da dívida, a infraestrutura física do evento também estava atrelada ao financiamento chinês. O centro de conferências onde a RightsCon ocorreria foi reformado em 2022 com uma doação de US$ 30 milhões do governo da China. Esse cenário de endividamento e cooperação técnica cria um ambiente onde, segundo observadores, a capacidade de Pequim em ditar limites para o que pode ser discutido em solo zambiano torna-se uma realidade preocupante para a sociedade civil global.

Consequências para o debate sobre direitos digitais

O cancelamento em Lusaca levanta um alerta sobre o futuro das conferências internacionais em países do Sul Global. Existe o temor de que organizações passem a evitar nações com fortes vínculos econômicos com a China, temendo represálias ou o bloqueio de pautas críticas. Esse movimento pode resultar em um estreitamento do debate sobre direitos digitais, justamente nas regiões onde a exportação de tecnologias de controle e vigilância é mais intensa.

A Access Now relatou que, em edições anteriores, como a realizada em 2025 em Taipé, nunca houve pressão direta de Pequim. O impacto foi tão amplo que até mesmo as celebrações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, da Unesco, que ocorreriam simultaneamente na capital zambiana, precisaram ser transferidas para Paris. Até o momento, nem o governo chinês nem a embaixada da Zâmbia se manifestaram oficialmente sobre as acusações de censura e interferência política.

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