Em uma análise contundente publicada na Folha de S.Paulo em 4 de outubro de 2026, o jornalista e colunista Marcelo Leite provocou um debate sobre a complexa relação entre valores morais, escolhas políticas e a memória coletiva no Brasil. Intitulada “Nossa senhora, a decência desaparecida”, a coluna se dirige a uma geração específica de eleitores, questionando as motivações por trás de suas decisões políticas e a aparente negligência de fatos que, segundo o autor, deveriam ser inquestionáveis.
Leite, conhecido por sua abordagem crítica e seu foco em jornalismo de ciência, utiliza uma linguagem carregada de ironia e indignação para confrontar o que ele percebe como um declínio da decência no cenário político nacional. O texto não apenas aponta para figuras e eventos controversos, mas também busca responsabilizar um grupo demográfico por suas escolhas, que, na visão do colunista, pavimentam o caminho para discursos e práticas que ele classifica como problemáticas.
A Crítica a uma Geração e a Polarização Política
A coluna de Marcelo Leite direciona-se explicitamente a um segmento da população nascido entre as décadas de 1950 e 1960, que, segundo ele, teve uma trajetória de envolvimento com movimentos estudantis e, posteriormente, se alinhou a correntes políticas mais conservadoras. O jornalista expressa sua perplexidade e crítica ao fato de que essa geração, com seu histórico, estaria agora considerando apoiar o que ele descreve como um “fascista”.
Essa abordagem sublinha a profunda polarização política que caracteriza o Brasil contemporâneo, onde as divisões ideológicas frequentemente se sobrepõem a laços geracionais e históricos. Leite, um autodeclarado ateu, enfatiza sua perspectiva jornalística baseada em fatos verificáveis, contrapondo-a ao que ele percebe como uma prevaricação com a verdade em nome de interesses econômicos e ideológicos, como o “ajuste fiscal” e as “privatizações”.
Fé e Estado Laico no Debate Público
Um dos pontos mais sensíveis da coluna é a crítica à crescente intersecção entre religião e política. Marcelo Leite manifesta seu repúdio a símbolos religiosos em instituições de Estado, como o crucifixo no Supremo Tribunal Federal (STF), e a discursos que misturam fé e propostas políticas, como a promessa de transformar o Brasil em um país de “vosso senhor Jesus”.
O colunista também aborda episódios específicos, como o “chute na santa” e a “bolinação eleitoreira com ela”, além do que ele chama de “batismo pelo bispo que bota para escanteio a padroeira do Brasil” em nome de uma “supremacia branca crente”. Essas referências destacam a tensão entre a laicidade do Estado e a influência de grupos religiosos na esfera pública, um tema recorrente e de grande repercussão no debate político brasileiro.
Escândalos e a Memória Coletiva
Leite elenca uma série de eventos e figuras controversas que, em sua visão, deveriam servir como alertas e motivar uma postura diferente por parte dos eleitores. Ele menciona as “rachadinhas” do Queiroz, o voto em homenagem ao torturador Ustra, as “tarifas do sabujo 02 de Rubio” e o caso do “irmãozão pedinte do Master”.
A coluna também recorda momentos críticos da história recente, como o massacre de inocentes durante a pandemia de Covid-19, a atuação dos “kids pretos” e os “cordeiros de resultados no 8 de janeiro”, as “Emendas Pix” e a legalização das “bets” sob os governos Temer e Bolsonaro, e a “bendita letalidade policial” sob o governo de Tarcísio de Freitas e seu secretário Derrite. Ao trazer à tona esses “fatos”, Leite busca confrontar a memória e a consciência de seus leitores, sugerindo que a omissão diante de tais eventos representa uma falha moral e histórica.
O Papel do Empresariado e a Responsabilidade Histórica
Em um dos trechos mais incisivos, Marcelo Leite nomeia uma extensa lista de empresários e figuras proeminentes do mercado financeiro, afirmando que eles “conheceis a verdade” e que esta “não vos libertará da responsabilidade histórica”. A inclusão desses nomes, como Flávio Rocha, André Esteves, Roberto Campos Neto, Rubens Ometto e Paulo Skaf, entre outros, sugere uma crítica à elite econômica do país e seu suposto papel na sustentação de políticas e governos que o colunista considera prejudiciais.
Essa parte da coluna amplia o escopo da responsabilidade, estendendo-a para além dos políticos e eleitores, e incluindo aqueles que detêm poder econômico e influência. Leite sugere que a busca por “bezerros de ouro do ajuste fiscal, das privatizações, da desregulamentação” estaria ligada a uma captura do Estado por interesses específicos, em detrimento do bem-estar coletivo.
A coluna de Marcelo Leite, ao misturar crítica política, referências culturais e um apelo à consciência, serve como um espelho das tensões e dilemas morais que permeiam a sociedade brasileira. Ela convida à reflexão sobre o que constitui a “decência” em um cenário de intensas disputas ideológicas e sobre o peso da responsabilidade individual e coletiva nas escolhas que moldam o futuro do país.
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