Joel Saget /AFP

Hantavírus no radar: de Minas Gerais à Antártida, a doença que exige atenção no Brasil

Saúde

A recente confirmação de um óbito por hantavírus em Minas Gerais, ocorrido em fevereiro e diagnosticado apenas três meses depois, acende um alerta sobre uma doença que, apesar de circular no Brasil há mais de três décadas, permanece muitas vezes invisível. Este caso local ganha ainda mais relevância diante de um surto internacional que colocou o hantavírus no centro das atenções globais, evidenciando a complexidade e os desafios no diagnóstico e controle dessa enfermidade.

A hantavirose, com sua alta letalidade e sintomas iniciais que se confundem com outras doenças comuns como gripe e dengue, representa uma ameaça silenciosa. A dificuldade em fechar o diagnóstico, muitas vezes tardio, sugere que os números oficiais de casos e óbitos podem ser significativamente subestimados, tornando a vigilância epidemiológica e a conscientização pública ainda mais cruciais.

Hantavírus: uma ameaça silenciosa e subestimada

O hantavírus é, na verdade, uma família de vírus transmitida por roedores silvestres, que são portadores assintomáticos, mas eliminam o patógeno pela urina, fezes e saliva durante toda a vida. A infecção humana ocorre principalmente pela inalação de partículas virais suspensas no ar, formadas a partir de excreções secas em ambientes fechados e pouco ventilados, como paióis, galpões, depósitos de grãos ou casas de campo abandonadas.

É importante ressaltar que a doença não é transmitida por água, alimentos, picadas de insetos ou contato casual entre pessoas. Após um período de incubação que pode variar de uma a oito semanas, os sintomas iniciais são semelhantes aos de uma gripe forte: febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas e vômitos. No entanto, em poucos dias, o quadro pode evoluir rapidamente para a síndrome cardiopulmonar por hantavírus (SCPH), caracterizada por falta de ar, queda de pressão e falência cardíaca e pulmonar.

Atualmente, não existe um tratamento antiviral específico para a hantavirose, e as vacinas disponíveis em alguns países não cobrem as variantes que circulam nas Américas. O tratamento é de suporte, geralmente em unidades de terapia intensiva (UTI), com oxigênio, ventilação mecânica e medicamentos para manter a circulação sanguínea. Mesmo com os melhores cuidados, a letalidade média no Brasil é alarmante, atingindo cerca de 46,5%, o que significa que quase um em cada dois pacientes confirmados morre.

O surto na Antártida e a rara transmissão entre humanos

A atenção global para o hantavírus foi intensificada recentemente por um surto a bordo do navio holandês MV Hondius, que realizava uma expedição à Antártida. Oito passageiros adoeceram e três morreram, marcando o primeiro registro de um surto de hantavírus em uma embarcação. Portos europeus chegaram a recusar a entrada do navio, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o risco para a população em geral como baixo.

O vírus envolvido nesse surto foi o Andes, uma das poucas espécies de hantavírus que, em situações muito específicas e de contato íntimo prolongado (como casais compartilhando a mesma cama ou profissionais de saúde sem proteção adequada), pode ser transmitido de pessoa para pessoa. Contudo, a OMS enfatiza que essa transmissão é rara e não se compara à facilidade de propagação de doenças como a COVID-19 ou a gripe. A principal hipótese investigada é que o casal holandês que adoeceu primeiro tenha se infectado em terra firme, durante uma viagem pela América do Sul antes de embarcar, com o longo período de incubação explicando o surgimento dos sintomas em alto-mar.

A realidade do hantavírus no Brasil: histórico e variantes

No Brasil, o hantavírus não é uma doença importada, mas uma realidade endêmica. O primeiro caso foi registrado em 1993, em Juquitiba, no interior de São Paulo. Desde então, o país tem enfrentado a doença, com mais de 13 mil casos suspeitos notificados entre 2013 e 2023, e 758 casos confirmados, dos quais quase 40% resultaram em óbito, conforme o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de fevereiro de 2025.

A letalidade varia entre os estados, superando 50% em algumas regiões e chegando a 100% no Maranhão no recorte do boletim. O Brasil abriga diversas variantes do hantavírus, muitas delas nomeadas em referência a locais geográficos, como Araraquara, Juquitiba, Castelo dos Sonhos, Anajatuba, Laguna Negra, Paranoá e Rio Mamoré. A variante Araraquara, encontrada no Cerrado, é considerada uma das mais agressivas conhecidas. A região Sul concentra o maior número de casos, enquanto o Centro-Oeste registra proporcionalmente o maior número de mortes.

A prevenção passa por medidas simples, mas eficazes, como evitar o contato com roedores e seus dejetos, manter ambientes limpos e arejados, e vedar frestas e buracos em residências e construções rurais. Em locais fechados por muito tempo, é fundamental ventilar o ambiente antes de entrar e utilizar equipamentos de proteção individual ao realizar a limpeza.

A hantavirose é uma doença séria que exige vigilância contínua e informação precisa para a população. Acompanhe o Diário Global para se manter atualizado sobre esta e outras notícias relevantes, com análises aprofundadas e contexto que impactam sua vida e a sociedade.

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