Em um cenário global marcado por tensões crescentes, o ano de 2025 revelou uma dura realidade sobre a forma como o mundo percebe e reage às crises humanitárias. Enquanto alguns conflitos dominam as manchetes e mobilizam a diplomacia internacional, outros, igualmente letais, permanecem à margem do debate público. Essa disparidade, conforme apontado pela colunista Bianca Santana, expõe uma preocupante hierarquia racial na atenção global, onde a vida e o sofrimento de certas populações são sistematicamente desvalorizados.
Um levantamento do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (Prio) destacou que a invasão da Rússia à Ucrânia, o conflito entre Israel e Gaza e a guerra civil no Sudão foram os epicentros de violência mais mortais em 2025, responsáveis por impressionantes 245 mil mortes diretas. Contudo, a análise aprofundada revela que a cobertura e a resposta internacional a esses eventos não são equitativas, lançando luz sobre um viés que transcende a mera geografia ou complexidade política.
A invisibilidade de conflitos e a hierarquia racial
É inegável que a guerra na Ucrânia e o conflito em Gaza, por suas implicações geopolíticas e proximidade com centros de poder ocidentais, geraram uma mobilização diplomática imediata e uma cobertura midiática diária e detalhada. Em contraste, tragédias de proporções devastadoras em outras partes do mundo, como o massacre de El Fasher, no Sudão, que ceifou a vida de quase 60 mil pessoas em uma única semana de outubro de 2025, permaneceram praticamente invisíveis no debate internacional.
Essa seletividade na atenção não é acidental. Ela reflete o que o pensador Frantz Fanon, em sua obra “Os Condenados da Terra”, descreveu como o racismo que subjuga determinados corpos, reduzindo ou retirando completamente sua humanidade. Para Fanon, essa desumanização serve como justificativa para a violência e a exploração, estabelecendo uma hierarquia onde algumas vidas são reconhecidas como intrinsecamente valiosas, enquanto outras, consideradas “outras”, não recebem o mesmo valor ou compaixão.
África e o peso da desatenção global
Os dados do Prio reforçam essa tese. Em 2025, a África concentrou 29 dos 65 conflitos armados envolvendo Estados, superando qualquer outra região do mundo. Enquanto o Oriente Médio atingiu seu maior número de conflitos desde 1946 e a Ásia o nível mais elevado desde 1994, a desatenção a crises africanas é particularmente gritante. O exemplo da ativista sudanesa Roya Hassan, que morreu por falta de tratamento médico e acesso a medicamentos devido ao conflito, ilustra as mortes indiretas e igualmente trágicas que raramente chegam às manchetes.
Outro caso emblemático é o do Haiti, um país praticamente ausente do debate internacional, que viu as mortes em conflitos saltarem de cerca de 200 para mais de 1.200 em um ano. A falta de cobertura e de mobilização para essas crises não é apenas uma falha jornalística ou diplomática; é um sintoma de uma estrutura global que hierarquiza o sofrimento com base em critérios raciais e geográficos, perpetuando a ideia de que algumas vidas importam mais do que outras.
Geopolítica e a falácia do mercado pacificador
A análise de Bianca Santana também aponta para uma transformação geopolítica crucial. Nos anos 1990, era comum a crença, difundida por economistas e organismos multilaterais, de que a expansão do comércio internacional e a interdependência econômica progressivamente reduziriam os incentivos para a guerra. A ideia era que mercados integrados gerariam estabilidade, pois países com intensas relações comerciais não teriam interesse em se destruir mutuamente.
Contudo, 2025 desmentiu essa hipótese. O mundo registrou oito conflitos entre Estados, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), muitos deles envolvendo nações com forte intercâmbio comercial. Isso demonstra que a globalização do mercado, como já alertava o geógrafo Milton Santos, não elimina a hierarquização, as exclusões e as desigualdades. Pelo contrário, o comércio global coexiste e, por vezes, é alimentado por nacionalismos exacerbados, competição por recursos e uma indústria armamentista em franca expansão.
Novos desafios: milícias e ameaças à soberania
Como agravante, observa-se uma complexificação dos conflitos, onde guerras civis e disputas internacionais se misturam à atuação de milícias e ao crime organizado. Essa dinâmica representa uma ameaça crescente à soberania de países, especialmente na América Latina, onde intervenções ou desestabilizações são frequentemente justificadas sob o pretexto de “enfrentamento” a essas forças. A linha entre conflitos internos e externos se torna tênue, e a vulnerabilidade de nações mais frágeis é acentuada pela falta de uma atenção internacional imparcial e consistente.
A reflexão proposta por Bianca Santana é um chamado urgente para que a comunidade global e a imprensa reavaliem suas prioridades, reconhecendo que a vida humana tem valor intrínseco, independentemente da cor da pele ou da localização geográfica. Somente assim será possível construir um mundo onde a atenção aos conflitos seja guiada pela ética e pela humanidade, e não por uma hierarquia racial silenciosa e devastadora.
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