A seleção haitiana de futebol sub-17 se prepara para um momento crucial em sua jornada esportiva: o Mundial do Qatar, que acontecerá entre novembro e dezembro. Para essa importante etapa, a equipe caribenha contará com o apoio do governo brasileiro, que estendeu um convite para que os jovens atletas utilizem as instalações de um centro esportivo da Marinha no Rio de Janeiro como base de treinamento. A iniciativa não apenas oferece uma estrutura de ponta, mas também simboliza a continuidade dos laços de solidariedade e cooperação entre as duas nações.
Este gesto de hospitalidade, embora focado na categoria de base, reflete uma relação diplomática de longa data. Curiosamente, um convite similar foi feito à seleção principal do Haiti, que enfrentará o Brasil em uma partida válida pelo ciclo da Copa do Mundo de 2026. No entanto, a federação haitiana optou por manter suas bases de treinamento já estabelecidas nos Estados Unidos, um dos países anfitriões do próximo Mundial, para a equipe sênior.
Laços diplomáticos e apoio esportivo entre nações
A oferta de treinamento para a equipe sub-17 foi articulada por meio da Embaixada do Brasil em Porto Príncipe, capital haitiana, e conta com o respaldo do Instituto Guimarães Rosa, do Itamaraty. A parceria se estende à ONG Viva Rio, que possui vasta experiência em projetos sociais no Haiti, reforçando o caráter humanitário e de desenvolvimento da iniciativa. O local escolhido para a preparação dos jovens atletas é o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes (Cefan), uma estrutura da Marinha do Brasil localizada no bairro da Penha, no Rio de Janeiro.
Entre setembro e outubro próximos, os jogadores haitianos terão a oportunidade de aprimorar suas habilidades e estratégias neste centro, antes de embarcarem para o Qatar. A preparação em solo brasileiro é vista como um diferencial significativo, proporcionando um ambiente estável e profissional, longe das complexidades que o país de origem enfrenta atualmente.
O cenário do futebol haitiano em meio à crise
A situação do futebol no Haiti é um reflexo direto da grave crise institucional e humanitária que assola o país. A nação caribenha tem sido aterrorizada pela violência de gangues, um cenário que se agravou drasticamente desde o assassinato do presidente Jovenel Moise, em julho de 2021. Essa instabilidade afeta diretamente a vida cotidiana e, consequentemente, o desenvolvimento esportivo local.
No elenco da seleção principal, por exemplo, apenas um dos 26 convocados, o volante Woodensky Pierre, atua no campeonato local, que segue ativo “aos trancos e barrancos”. A grande maioria dos jogadores haitianos atua no exterior, principalmente na Europa (com destaque para a França) e nas Américas (especialmente nos Estados Unidos), e até mesmo no Irã. É notável que 16 desses atletas nem sequer nasceram no Haiti, o que demonstra a forte diáspora e a busca por oportunidades e segurança fora do país. A seleção principal, por sua vez, realizou sua preparação para os compromissos recentes na Flórida e, posteriormente, na Universidade Stockton, em Nova Jersey, que serve como sua base oficial durante o torneio.
A jornada da seleção sub-17 no Qatar
O Mundial sub-17, que reunirá 48 seleções de todo o mundo, acontecerá de 19 de novembro a 13 de dezembro no Qatar. O Haiti está inserido no Grupo D, onde enfrentará adversários de peso como França, Arábia Saudita e Uruguai. A oportunidade de se preparar no Brasil oferece aos jovens haitianos não apenas um treinamento de alto nível, mas também um período de foco e tranquilidade, essenciais para o desempenho em uma competição de tamanha envergadura.
Para esses atletas, muitos dos quais vivem em condições desafiadoras, a participação no Mundial e a preparação no Rio representam um sonho e uma chance de visibilidade. É uma oportunidade de mostrar seu talento e, quem sabe, trilhar um caminho profissional que possa impactar positivamente suas vidas e as de suas famílias, servindo também como inspiração para outros jovens haitianos.
História de uma relação bilateral complexa e solidária
As relações diplomáticas entre Brasil e Haiti somam quase um século, com 98 anos de história. Esses laços foram significativamente fortalecidos pela Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), uma operação de paz liderada militarmente pelo Brasil por 13 anos, entre 2004 e 2017. Além disso, a onda migratória de haitianos para o Brasil após o devastador terremoto de 2010 criou uma forte conexão humana, com uma estimativa de 150 mil haitianos vivendo atualmente no país.
Para Ricardo Seitenfus, ex-representante especial da OEA no Haiti (2009-2011) e autor de importantes obras sobre o país caribenho, o convite para a seleção sub-17 treinar no Rio reforça e aprofunda esses laços fraternos. “Há muito o Haiti virou um país irmão”, afirmou Seitenfus, destacando a importância de iniciativas como essa para a manutenção e o fortalecimento da solidariedade entre as duas nações. A cooperação esportiva, nesse contexto, transcende o campo de jogo e se torna um símbolo de apoio mútuo e esperança. Para mais detalhes sobre as relações entre Brasil e Haiti, você pode consultar fontes oficiais como o Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
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