Blackday/Adobe Stock

Metformina pode frear degeneração macular relacionada à idade, sugere estudo

Saúde

Um medicamento amplamente conhecido e de baixo custo, utilizado há décadas no tratamento do diabetes tipo 2, a metformina, pode estar associado a um benefício surpreendente: a proteção contra a perda de visão relacionada à idade. Uma pesquisa recente, publicada na prestigiada revista BMJ Open Ophthalmology, acompanhou cerca de 2.000 pacientes e observou uma possível ligação entre o uso contínuo do fármaco e a desaceleração da progressão da degeneração macular relacionada à idade (DMRI), uma das principais causas de cegueira em idosos.

O estudo, que monitorou os participantes por cinco anos, revelou que a utilização da metformina esteve associada a uma diminuição de 37% no avanço da DMRI em seu estágio intermediário. Este achado se manteve mesmo após ajustes para fatores cruciais como idade, sexo, presença de retinopatia diabética, controle glicêmico e tempo de diagnóstico do diabetes, acendendo um novo debate na comunidade científica e oftalmológica sobre o potencial terapêutico do medicamento.

Compreendendo a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI)

A degeneração macular relacionada à idade (DMRI) representa um desafio significativo para a saúde ocular global, sendo a principal causa de perda de visão central em indivíduos com mais de 50 anos. A doença afeta a mácula, uma pequena área no centro da retina responsável pela visão nítida e detalhada, essencial para atividades como leitura, reconhecimento de rostos e percepção de cores.

Existem duas formas principais de DMRI: a seca e a úmida. A forma seca, responsável por aproximadamente 85% dos casos, caracteriza-se pelo afinamento gradual da mácula e pelo acúmulo de drusas – pequenos depósitos de proteínas e gordura – sob a retina. Sua progressão é lenta, resultando em uma perda gradual da visão central. Já a DMRI úmida é mais agressiva, envolvendo o crescimento de vasos sanguíneos anormais que vazam fluidos e sangue, causando danos rápidos e severos à visão.

Fatores de risco para o desenvolvimento da DMRI incluem o envelhecimento natural, predisposição genética, tabagismo, hipertensão arterial, níveis elevados de colesterol e diabetes descontrolado. A compreensão desses fatores é crucial para a prevenção e o manejo da doença.

O Mecanismo de Ação da Metformina e a Saúde Ocular

A possível ação protetora da metformina na DMRI não é meramente uma coincidência estatística; há uma base biológica plausível que sustenta essa hipótese. Conforme explica a oftalmologista Erika Yasaki, do Hospital Israelita Albert Einstein, a metformina vai além do controle glicêmico, influenciando processos celulares intrinsecamente ligados ao envelhecimento.

Entre esses mecanismos, destacam-se a redução do estresse oxidativo e da inflamação celular, ambos fatores críticos na progressão da DMRI. A retina, um tecido com alta demanda metabólica e uma das maiores necessidades de oxigênio do corpo, é particularmente vulnerável ao estresse oxidativo. A metformina atua ativando a AMPK (proteína quinase ativada por AMP), uma via regulatória de energia que promove a limpeza e a sobrevivência celular.

A médica Solange Travassos, coordenadora do departamento de Saúde Ocular da Sociedade Brasileira de Diabetes, reforça que estudos experimentais já associaram a ativação da AMPK à proteção de fotorreceptores e do epitélio pigmentar da retina, com consequente redução do estresse oxidativo e melhora da função mitocondrial. Esses achados fornecem um forte indício de que o medicamento possui um efeito protetor na saúde ocular.

Desafios e Próximos Passos na Pesquisa

Apesar do entusiasmo gerado pelos resultados, especialistas alertam para a necessidade de cautela e aprofundamento das investigações. Nicholas Beare, oftalmologista e principal autor do estudo da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, enfatiza que, por se tratar de um trabalho observacional, ele estabelece apenas uma associação, e não uma relação direta de causa e efeito entre a metformina e a menor progressão da DMRI.

Isso significa que, embora o medicamento esteja ligado ao benefício, outros fatores não medidos podem estar contribuindo para o resultado. Além disso, a pesquisa focou exclusivamente em pacientes com diabetes tipo 2, o que levanta a questão se o mesmo efeito protetor se estenderia à população geral com DMRI que não possui diabetes. Para comprovar a eficácia da metformina na prevenção ou no retardo da DMRI, são indispensáveis estudos clínicos randomizados em humanos, comparando o medicamento com um placebo.

Enquanto a pesquisa clínica avança, a indústria farmacêutica já explora novas abordagens. A empresa Curative Biotech, dos Estados Unidos, está desenvolvendo uma formulação de metformina para aplicação direta nos olhos, seja em colírio ou por injeções intraoculares. A meta é entregar o fármaco diretamente ao epitélio pigmentar da retina, onde os processos degenerativos da DMRI se iniciam, potencialmente acelerando o desenvolvimento de uma nova terapia.

Tratamentos Atuais e a Importância da Prevenção

Atualmente, o manejo da DMRI varia conforme o tipo e o estágio da doença. Para a forma seca, o principal recurso é a suplementação vitamínica com antioxidantes e ômega-3, que pode ajudar a desacelerar a progressão. Já para a DMRI úmida, o tratamento padrão envolve injeções intraoculares periódicas de medicamentos antiangiogênicos, que bloqueiam o crescimento de vasos sanguíneos anormais, estabilizando ou até melhorando a visão na maioria dos pacientes.

A Academia Americana de Oftalmologia informa que terapias genéticas estão em fase de estudo, buscando desenvolver tratamentos de aplicação única que capacitem o próprio olho a inibir o crescimento desses vasos. No entanto, independentemente dos avanços farmacológicos, a prevenção e o controle de fatores de risco continuam sendo pilares fundamentais.

Manter uma dieta equilibrada, controlar o peso, a pressão arterial e o colesterol, e, crucialmente, evitar o tabagismo, são medidas de saúde geral que impactam diretamente na redução do risco ou na progressão da DMRI, especialmente da forma seca para a úmida, como destaca a Dra. Yasaki. A Dra. Solange Travassos reitera que a conduta mais segura permanece o acompanhamento oftalmológico regular e a tomada de decisões compartilhada com o médico. A metformina, por enquanto, é uma promessa promissora, mas ainda aguarda validação em estudos mais robustos para se tornar um aliado efetivo contra a degeneração macular.

Acompanhar os avanços na medicina é essencial para entender como novas pesquisas podem impactar nossa saúde. Continue conectado ao Diário Global para se manter atualizado com as últimas notícias, análises aprofundadas e reportagens que trazem contexto e relevância para o seu dia a dia. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, abrangendo temas que importam para você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *