Dez anos se passaram desde que o Reino Unido decidiu, por meio de um referendo em 23 de junho de 2016, deixar a União Europeia. Uma década depois, o país ainda lida com as profundas consequências dessa escolha, que se manifestam em uma persistente crise política e econômica. A instabilidade é tão marcante que, na última segunda-feira, Keir Starmer anunciou sua renúncia, tornando-se o sexto primeiro-ministro britânico a cair desde o histórico voto.
A velocidade com que os líderes se sucedem no cargo é um sintoma claro da desorganização política que o Brexit impôs. Para contextualizar, entre 1979 e 2016, o Reino Unido teve apenas cinco premiês. A proximidade da data da renúncia de Starmer com o aniversário do referendo não é mera coincidência; ela sublinha como a saída da UE continua a ser a força motriz por trás da volatilidade no cenário político britânico, moldando debates, carreiras e o futuro da nação.
Instabilidade política e a sombra do Brexit
A renúncia de Keir Starmer é mais um capítulo na saga de líderes que tentaram, sem sucesso, estabilizar o país após o Brexit. A decisão de deixar a União Europeia desencadeou uma série de eventos que derrubaram figuras como David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak, antes de Starmer. Cada um enfrentou o desafio de conciliar as promessas da campanha do ‘Leave’ com a dura realidade das negociações e seus impactos.
O sucessor mais cotado para assumir o posto é Andy Burnham, atual prefeito da Grande Manchester. Conhecido por suas posições pró-europeias dentro do Partido Trabalhista, sua ascensão poderia sinalizar uma possível reavaliação das relações com o bloco europeu, embora um retorno à UE pareça improvável no curto prazo. A própria Bruxelas reagiu à instabilidade britânica, adiando unilateralmente a cúpula com Londres, prevista para 22 de julho. Este gesto, embora pequeno, carrega um grande significado, evidenciando que a relação entre as duas margens do Canal da Mancha permanece tensa e marcada pela decisão tomada há uma década.
Os custos econômicos da separação
Os dados econômicos corroboram a narrativa de que o Brexit tem sido um fardo para o Reino Unido. O Office for Budget Responsibility (OBR), órgão de fiscalização das contas públicas britânicas, estima que a saída da UE reduz a produtividade de longo prazo do país em 4%, em comparação com um cenário de permanência no bloco. Esse efeito é atribuído, principalmente, às novas barreiras não tarifárias que dificultam o comércio com a União Europeia, elevando custos e burocracia para as empresas britânicas.
Um estudo mais aprofundado, conduzido por economistas das universidades de Stanford, Nottingham e King’s College London e publicado em fevereiro de 2024, oferece uma perspectiva ainda mais sombria. Ele calcula que, até 2025, o Brexit já havia encolhido o Produto Interno Bruto (PIB) britânico entre 6% e 8% em relação a países comparáveis. Além disso, o investimento empresarial registrou uma queda de 18%, e a produtividade do trabalho diminuiu cerca de 4%, evidenciando um impacto sistêmico na economia.
Impacto no mercado único europeu
As repercussões do Brexit não se limitam apenas ao Reino Unido. Para Enrico Letta, ex-primeiro-ministro da Itália e autor de um relatório oficial encomendado pela própria União Europeia em 2024 sobre o futuro do mercado único, a saída britânica paralisou a chamada união dos mercados de capitais. Essa iniciativa visava integrar os mercados financeiros dos países-membros para que a Europa pudesse financiar sua própria inovação, reduzindo a dependência de capital americano ou asiático.
No relatório, Letta descreve essa unificação como um elemento central para a competitividade europeia. Ele argumenta que, sem a participação do Reino Unido, um dos maiores centros financeiros do mundo, o impulso político e a capacidade de fazer essa reforma avançar diminuíram drasticamente. A ausência britânica na mesa de negociações deixou um vácuo que dificulta a concretização de um projeto crucial para o futuro econômico do continente.
Desafios de longo prazo e o futuro britânico
Somando-se a esses diagnósticos, dados do Conference Board revelam que a produção real por habitante do Reino Unido foi, em 2025, 27% menor do que seria se a trajetória de crescimento observada entre 1970 e 2007 tivesse se mantido. Isso significa que, em termos de prosperidade individual, os cidadãos britânicos estão significativamente mais pobres do que poderiam estar.
O país também enfrenta hoje as menores taxas de poupança, um indicador preocupante para a resiliência econômica a longo prazo e a capacidade de investimento futuro. Dez anos após o referendo, o Brexit continua a ser uma força desestabilizadora, com o Reino Unido ainda buscando um novo equilíbrio em sua política e economia. A jornada para encontrar esse novo caminho promete ser longa e desafiadora.
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