Especialistas apontam que uso recreativo de tadalafila entre homens jovens tem chamado atenção nos consultórios - Pixabay

Consumo de tadalafila dispara entre jovens e acende alerta sobre riscos à saúde

Saúde

O Brasil testemunha um aumento alarmante no consumo de tadalafila, um medicamento originalmente destinado ao tratamento de disfunção erétil e outras condições específicas. Longe de suas indicações clínicas, a substância tem ganhado popularidade entre homens jovens e frequentadores de academias, que a utilizam na busca por um suposto aprimoramento do desempenho sexual e físico. Essa tendência, impulsionada por uma percepção equivocada de segurança e facilidade de acesso, tem gerado profunda preocupação na comunidade médica.

Os números são eloquentes: as vendas de tadalafila no país saltaram de 3,2 milhões de caixas em 2015 para impressionantes 74,9 milhões em 2025, conforme dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em 2024, o total já havia atingido 64,7 milhões de unidades. Esse crescimento exponencial, embora não detalhe a faixa etária dos consumidores, coincide com relatos crescentes de uso recreativo entre jovens em consultórios médicos, um cenário que acende um sinal de alerta sobre os perigos da automedicação.

A Escalada do Consumo e o Alerta Médico

Conhecida popularmente como “tadala”, a tadalafila é prescrita para condições como disfunção erétil, hipertensão arterial pulmonar e sintomas urinários associados ao aumento da próstata. Contudo, sua crescente presença em círculos sociais, redes e aplicativos de mensagens reflete uma banalização do uso, transformando-a em um “suplemento” de performance. Ricardo, um jovem de 28 anos (nome alterado pela reportagem), exemplifica essa realidade ao relatar o uso de cinco miligramas do medicamento para “sair com mais de uma menina em um dia”.

Para especialistas, a facilidade de compra em farmácias, sem a necessidade de receita médica, contribui significativamente para essa disseminação. Gustavo Marquesine Paul, coordenador do Departamento de Andrologia, Reprodução e Medicina Sexual da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), destaca que, embora a tadalafila não cause dependência química, ela pode induzir uma dependência psicológica. “Esses homens passam a acreditar que só conseguirão ter um bom desempenho sexual se estiverem usando o medicamento”, alerta o especialista, sublinhando a gravidade do problema.

Efeitos Colaterais e Perigos Ocultos

Apesar de ser considerada segura quando utilizada sob estrita orientação médica e para suas indicações aprovadas, a tadalafila não está isenta de riscos, especialmente quando usada de forma indiscriminada. Seus efeitos adversos mais comuns estão intrinsecamente ligados à sua ação vasodilatadora, que pode provocar dor de cabeça, dores musculares (principalmente na região lombar), congestão nasal, vermelhidão no rosto e desconfortos gastrointestinais, como azia e queimação no estômago.

Em casos mais raros, as consequências podem ser severas e exigir atenção médica imediata. Fernando Meyer, urologista e professor da Escola de Medicina e Ciências da Vida da PUC-PR, aponta para o risco de priapismo, uma ereção prolongada e dolorosa por mais de quatro horas, além de possíveis alterações visuais e auditivas. Quedas significativas da pressão arterial também são um perigo, podendo levar a desmaios e acidentes. O uso “off label” por mulheres, sem avaliação médica, também é preocupante, pois a vasodilatação pode aumentar a sensibilidade genital, mas os riscos associados não são totalmente compreendidos sem acompanhamento profissional.

Combinações Perigosas e Interações Medicamentosas

A situação se agrava consideravelmente quando a tadalafila é combinada com outras substâncias. A mistura com álcool, por exemplo, pode potencializar o efeito hipotensor do medicamento, elevando o risco de tontura, queda brusca de pressão, aceleração dos batimentos cardíacos e cefaleia intensa. Rodrigo Wilson Andrade, urologista e coordenador da Urologia do Hospital Albert Sabin, enfatiza que o perigo é ainda maior quando a tadalafila é associada a energéticos, estimulantes, anabolizantes, drogas recreativas ou suplementos de procedência duvidosa.

“Muitas pessoas não sabem exatamente o que estão consumindo, o que torna os efeitos imprevisíveis”, afirma Andrade. Além disso, interações medicamentosas são um ponto crítico. Pacientes que fazem uso de nitratos para doenças cardíacas, por exemplo, podem experimentar quedas perigosas da pressão arterial se associarem a tadalafila a determinados remédios. A falsa sensação de segurança, que leva alguns usuários a excederem as doses recomendadas, é outro fator de risco que reforça a necessidade imperativa de prescrição e acompanhamento médico.

A Pressão Social e a Falsa Promessa de Desempenho

O consumo sem indicação médica de tadalafila entre jovens não é um fenômeno isolado, mas sim o resultado de uma complexa interação de fatores sociais e culturais. A influência das redes sociais, a facilidade de acesso ao medicamento e a crescente pressão por desempenho em diversas esferas da vida contribuem para essa realidade. Gustavo Marquesine Paul destaca o papel de influenciadores, profissionais e até mesmo dos próprios usuários na “normalização” do uso da tadalafila como se fosse um mero suplemento de desempenho, desconsiderando seus riscos.

A exposição a conteúdos pornográficos também é apontada como um fator que molda expectativas irreais sobre duração, frequência e performance sexual, distorcendo a percepção de normalidade. Nesse contexto, a internet se torna um terreno fértil para a circulação de informações superficiais e o incentivo ao uso sem orientação. Apesar das percepções individuais, como a de Ricardo, que sentiu uma suposta melhora no desempenho sexual e um “pump” muscular, médicos reforçam que não há evidências científicas de que a tadalafila melhore o desempenho sexual ou físico em homens saudáveis. O “pump” muscular, por exemplo, é uma sensação temporária e não indica benefício real para pessoas saudáveis.

Diante dos riscos e da falta de comprovação científica para o uso recreativo, a mensagem dos especialistas é unânime: a tadalafila é um medicamento sério e seu uso deve ser restrito a indicações médicas específicas, sempre com acompanhamento profissional. A automedicação, especialmente em busca de um desempenho irreal, pode trazer consequências graves e irreversíveis para a saúde.

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