Viver até os 60 anos, que há pouco mais de um século era um privilégio restrito a poucos, tornou-se a realidade da maioria dos brasileiros. Essa conquista demográfica, contudo, impõe um desafio monumental ao país: a necessidade de adaptar um sistema de saúde desenhado para crises agudas a uma nova configuração de pacientes que convivem por décadas com doenças crônicas, limitações funcionais e demandas complexas.
A aceleração demográfica e o novo perfil epidemiológico
O Brasil atravessa uma transição demográfica em ritmo acelerado. Dados do IBGE revelam que o contingente de brasileiros com 60 anos ou mais saltou de 20,5 milhões em 2010 para 35,2 milhões em 2025, um crescimento de 71% em apenas 15 anos. A projeção para 2050 é ainda mais expressiva, com a estimativa de que 65 milhões de pessoas — cerca de 30% da população — integrem essa faixa etária.
Essa mudança altera profundamente o perfil epidemiológico atendido pelos serviços de saúde. Historicamente estruturado para combater doenças infecciosas e traumas agudos, o sistema agora enfrenta uma demanda crescente por manejo de hipertensão, diabetes, câncer, doenças cardiovasculares e demências. O cenário é agravado pela multimorbidade, onde o paciente apresenta diversas condições simultâneas, exigindo uma mudança de paradigma: a transição de um modelo reativo para um modelo proativo e contínuo.
O desafio da fragilidade e a sustentabilidade do SUS
Mais de 80% dos idosos brasileiros dependem do SUS, segundo dados do Elsi-Brasil, realizado pela Fiocruz em parceria com a UFMG. O debate sobre a sustentabilidade desse atendimento passa obrigatoriamente pelo conceito de fragilidade — uma síndrome marcada pela redução das reservas fisiológicas do organismo. Um indivíduo frágil perde a capacidade de responder a estresses físicos que, em outras condições, seriam facilmente superados.
Estudos recentes apontam que cerca de 38% dos brasileiros com 50 anos ou mais apresentam algum grau de fragilidade. Essa condição está diretamente ligada ao aumento das internações e à maior utilização de recursos hospitalares. Especialistas como o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, reforçam que o custo elevado não é causado pelo envelhecimento em si, mas pelo acúmulo de doenças preveníveis e incapacidades ao longo da vida.
Atenção primária como eixo central do cuidado
Para enfrentar esse cenário, a Atenção Primária surge como a ferramenta mais estratégica. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) possuem a capilaridade necessária para acompanhar o paciente ao longo do tempo, conhecendo seu contexto social e identificando riscos antes que eles se transformem em emergências clínicas. O foco deve ser o acompanhamento contínuo e a coordenação do cuidado, evitando que o sistema reconheça a fragilidade apenas no momento da crise.
Segundo Rafael Herrera Ornelas, diretor de Atenção Primária e Rede Assistencial do Einstein Hospital Israelita, a organização do fluxo assistencial é fundamental. O objetivo é que a rede de saúde consiga intervir precocemente, monitorando condições crônicas e garantindo que o idoso mantenha sua autonomia funcional pelo maior tempo possível. Esse modelo, que já é aplicado em unidades geridas pelo Einstein em São Paulo, exemplifica a importância da gestão territorial e do vínculo com a comunidade.
Perspectivas para o futuro da longevidade
Preparar o Brasil para o envelhecimento exige políticas públicas que transcendam a ampliação de leitos hospitalares. O investimento deve ser direcionado para a promoção da saúde e a prevenção, considerando o curso de vida do cidadão desde a infância. A valorização do idoso como um recurso ativo na sociedade e a educação em saúde são pilares essenciais para garantir que a longevidade seja acompanhada de qualidade de vida.
Acompanhar a evolução das políticas públicas e as inovações no setor de saúde é fundamental para compreender os próximos passos dessa transição demográfica. O Diário Global segue comprometido em trazer análises aprofundadas sobre os temas que moldam o futuro do Brasil, mantendo você informado com credibilidade e rigor jornalístico. Continue conosco para acompanhar os desdobramentos desse debate essencial.
