Verba do SUS via emendas parlamentares prioriza material de escritório sobre equipamentos médicos

Verba do SUS via emendas parlamentares prioriza material de escritório sobre equipamentos médicos

Saúde

Um relatório recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) acende um alerta sobre a destinação das emendas parlamentares de investimento no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS). Os dados revelam que, em 2025, uma parcela significativa desses recursos foi utilizada para adquirir itens de infraestrutura e material de escritório, superando o investimento em equipamentos médicos essenciais de baixo custo. Essa constatação levanta questionamentos sobre a eficácia da alocação de verbas e as prioridades na saúde pública brasileira.

As emendas parlamentares são instrumentos importantes que permitem aos congressistas direcionar recursos do orçamento federal para projetos específicos em seus estados e municípios. Na área da saúde, elas deveriam, em tese, fortalecer a rede de atendimento, garantindo melhores condições para pacientes e profissionais. Contudo, o estudo do Ieps sugere que, na prática, a realidade pode ser diferente, com a priorização de itens administrativos em detrimento de ferramentas clínicas que impactam diretamente o diagnóstico e tratamento.

Foco em infraestrutura e veículos na Atenção Primária

O boletim do Ieps detalha que, no ano de 2025, 65,7% dos equipamentos financiados por emendas individuais na APS – um total de 62.788 dos 95.598 itens – foram classificados como “Infraestrutura e Material de Escritório”. Em contraste, equipamentos de saúde de baixo custo, como eletrocardiógrafos, representaram apenas 27,9% do total de itens adquiridos. Essa desproporção se mantém quando analisados os valores investidos.

Dos R$ 491 milhões recebidos pela APS via emendas, R$ 113,9 milhões (23%) foram direcionados para infraestrutura. Já os equipamentos de baixo custo receberam R$ 58,8 milhões (12%). A categoria que mais absorveu recursos foi a de “Veículos”, com 54% do total investido, somando R$ 263,5 milhões. Marcella Semente, especialista em relações institucionais do Ieps e coautora do estudo, destaca a anomalia: “A compra de carros consome, sozinha, mais recursos de emendas parlamentares de investimento na Atenção Primária do que qualquer outro tipo de equipamento de saúde propriamente dito.”

Sintoma de subfinanciamento crônico e desigualdade

Para a especialista, a predominância de gastos com infraestrutura básica – como cadeiras, computadores e sistemas de climatização – aponta para uma carência fundamental nas unidades de saúde do país. Isso seria um sintoma claro do subfinanciamento crônico da rede pública, e não necessariamente de uma má gestão local. A necessidade de adquirir itens tão básicos com verbas de emendas, que deveriam complementar e aprimorar os serviços, revela um déficit estrutural profundo.

O Ieps ressalta a dificuldade em determinar se o financiamento desses equipamentos está alinhado com as necessidades específicas de cada município. Contudo, a aquisição de itens de infraestrutura em quantidade duas vezes maior que a de equipamentos clínicos sugere uma desconexão entre a destinação dos recursos e as prioridades para a melhoria da assistência à saúde. A distribuição dos recursos também não segue critérios de equidade regional, agravando as disparidades já existentes.

Disparidades regionais e falta de critérios claros

A análise da distribuição de recursos entre 2023 e 2025 revela um cenário de grande desigualdade. Embora 70% dos 5.570 municípios brasileiros tenham recebido algum tipo de emenda de investimento em saúde, a alocação per capita varia drasticamente. Municípios como Paulista (PE) e Maracanaú (CE) registraram os valores mais baixos, com apenas R$ 0,40 per capita. No extremo oposto, Praia Norte (TO) recebeu R$ 1.577 per capita, um valor 17 vezes superior à média nacional de R$ 89,07.

Regionalmente, o Centro-Oeste foi o mais beneficiado, com 85% de seus municípios recebendo emendas de investimento. Sul (76%) e Sudeste (73%) vêm em seguida. As regiões Norte (63%) e Nordeste (59%) ficaram nas últimas posições, apesar de serem historicamente mais dependentes de repasses da União para a manutenção de serviços básicos. “O esperado, dado o grau de dependência fiscal das prefeituras do Norte em relação a transferências da União, seria que a região recebesse mais emendas de investimento, não menos. Isso reforça a suspeita de que a alocação não segue critério redistributivo”, explica Marcella Semente. A ausência de uma regra legal que determine a repartição proporcional dos recursos entre as regiões deixa a decisão a cargo do parlamentar autor da emenda, o que pode perpetuar as desigualdades.

A fatia de recursos provenientes de emendas parlamentares para a saúde tem mostrado uma tendência de encolhimento, o que torna ainda mais crucial a discussão sobre a eficiência e o impacto de cada real investido. É fundamental que a destinação dessas verbas esteja alinhada às reais necessidades da população, garantindo que o SUS possa oferecer um atendimento de qualidade e com a infraestrutura adequada para todos os cidadãos.

Para aprofundar-se nos detalhes do relatório e em outras análises sobre políticas públicas de saúde, acesse o site do Ieps. Continue acompanhando o Diário Global para ter acesso a informações relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre os temas que impactam o Brasil e o mundo. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma leitura jornalística aprofundada para que você esteja sempre bem-informado.

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