Entre o mar e as urnas: a vida de um ex-pescador de Paraty e sua visão política

Entre o mar e as urnas: a vida de um ex-pescador de Paraty e sua visão política

Politica

Aos 78 anos, Arnor da Cruz Conceição, um barqueiro experiente de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, personifica a complexidade da vida no litoral brasileiro, onde a tradição da pesca se entrelaça com o dinamismo do turismo. Sua rotina, marcada pela beleza da paisagem e pelos desafios econômicos, revela também um cenário de reflexão política, onde a indecisão sobre o voto se manifesta em meio à dependência de benefícios governamentais.

A história de Arnor é um retrato da transformação social e econômica de muitas comunidades costeiras, que se adaptam para sobreviver e prosperar. Sua visão sobre as eleições, permeada por um certo ceticismo e pela valorização do cotidiano, oferece uma perspectiva humana sobre o engajamento cívico de uma parcela da população brasileira.

Uma Vida Entre Redes e Roteiros Turísticos em Paraty

Desde os 12 anos, Arnor se considera um “trabalhador do mar”. Nascido em Paraty, mas com raízes nas comunidades caiçaras “da beira do continente”, ele iniciou sua jornada na pesca. Contudo, o tempo trouxe mudanças significativas para a região e para sua profissão.

“Aqui o forte era a pesca e o turismo, mas o turismo venceu a pesca; ficou mais forte para nós”, explica Arnor. Essa transição reflete um movimento mais amplo em Paraty, que se consolidou como um dos principais destinos turísticos do Brasil, atraindo visitantes com suas belezas naturais e seu centro histórico.

Hoje, Arnor vive dos passeios de barco, uma atividade que, em um “dia bom”, pode render pelo menos duas viagens, cada uma cobrada a R$ 150 a hora. No entanto, a sazonalidade é um fator crucial. Períodos de “baixo movimento”, como outono e inverno, podem deixá-lo até três dias sem serviço, evidenciando a instabilidade inerente ao setor.

O Apoio Governamental: Sustento e Desafios da Manutenção

Para mitigar os impactos financeiros dos períodos de baixa demanda, Arnor conta com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), um auxílio do governo federal destinado a pessoas com mais de 65 anos em situação de vulnerabilidade ou baixa renda. Este benefício é fundamental para sua subsistência.

“Olha, dá para resolver alguma coisa, principalmente para a gente que trabalha aqui, que não tem um salário fixo”, afirma, batendo no casco de seu barco. Ele ressalta os altos custos de manutenção de sua embarcação, um gasto “que você não imagina”, e como o BPC se torna um pilar em sua economia doméstica. O BPC, gerido pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), é um direito garantido pela Constituição Federal, visando assegurar um salário mínimo mensal a idosos e pessoas com deficiência que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família. Para mais informações sobre o BPC, consulte o site oficial do governo.

A dependência de Arnor do BPC ilustra a importância das políticas de assistência social para milhões de brasileiros, especialmente aqueles que, como ele, atuam em setores informais ou enfrentam a volatilidade do mercado de trabalho.

Urnas e Indecisões: A Complexidade do Voto Sênior no Brasil

Quando o assunto é política, Arnor demonstra uma memória seletiva e um certo distanciamento. Ele tem dificuldade para recordar em quem votou nas eleições presidenciais de 2022, chegando a questionar: “Na última, era o Lula o presidente, né? Ou não?”. Após alguma hesitação, ele confirma ter votado em Jair Bolsonaro (PL), o candidato derrotado.

“Política é meio complicado, é que nem futebol. Você descarrega tudo naquele time, chega na hora, o time perde”, brinca, revelando uma visão pragmática e desapegada dos resultados eleitorais. Para ele, as eleições municipais são as mais importantes, pois “mexem no cotidiano dos moradores de Paraty“.

Apesar disso, Arnor não votou nas eleições municipais de 2024. “Eu estava trabalhando e quando voltei, estava muito cansado, aí não fui.” Se tivesse votado, ele considera que talvez teria escolhido Zezé Porto, o atual prefeito do Republicanos, que está em seu terceiro mandato. “Zezé pegou agora, está começando, tem muitas coisas aí que ele tá melhorando.”

Sua preferência política pende para candidatos “mais conservadores”, pois tem “a impressão de que as coisas vão melhorar com a direita”. Ele afirma nunca ter votado em Lula, mas não se recorda de suas escolhas antes de Bolsonaro. O voto é facultativo para maiores de 70 anos no Brasil, e na última eleição presidencial, apenas 45% dessa população compareceu às urnas no segundo turno, um dado que contextualiza a atitude de Arnor.

Arnor acompanha as notícias pelos telejornais da Globo e por aplicativos no celular, mantendo-se informado sobre os acontecimentos que moldam o país e sua cidade. Sua história é um lembrete de que, por trás dos números e das manchetes, existem vidas reais, com suas complexidades, esperanças e indecisões, moldando o cenário político e social do Brasil.

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