O Brasil se encontra em um cenário de alerta sanitário, impulsionado pela intensificação do fenômeno El Niño. As projeções da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que o evento climático, caracterizado por padrões extremos de chuva e calor, já pode ser classificado como uma emergência sanitária, com potencial para sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o país. Contudo, um levantamento recente expõe uma preocupante disparidade na preparação das capitais brasileiras para enfrentar esses impactos.
Enquanto algumas cidades demonstram ter protocolos e estruturas organizadas, a maioria ainda se apoia em medidas fragmentadas, como o monitoramento climático e a emissão de alertas. Essa abordagem heterogênea levanta questões cruciais sobre a capacidade nacional de resposta a uma crise que se anuncia complexa e multifacetada, exigindo uma coordenação mais robusta e planos de contingência bem definidos.
O Cenário de Emergência Sanitária e Seus Desafios
O El Niño, fenômeno climático natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, tem se manifestado com severidade, provocando efeitos climáticos extremos que variam drasticamente de uma região para outra do Brasil. Ao mesmo tempo em que favorece secas prolongadas em algumas áreas, intensifica chuvas e inundações em outras. Essa dualidade impõe um desafio significativo para a saúde pública, pois dificulta a previsão exata de quais doenças terão maior incidência em cada localidade.
A coordenadora do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz, Renata Gracie, doutora em saúde coletiva pela UFRJ, ressalta a amplitude dos impactos. Segundo ela, cada evento ambiental — seja uma onda de calor, uma inundação ou uma estiagem prolongada — gera efeitos difusos na saúde. Essa complexidade exige uma compreensão aprofundada e estratégias adaptadas às realidades regionais, algo que muitas capitais ainda não conseguiram consolidar.
Disparidade na Resposta das Capitais
A pesquisa realizada com as 26 capitais e o Distrito Federal revelou que a prontidão para lidar com os efeitos do El Niño é bastante desigual. Apenas 12 das 27 unidades da federação responderam ao levantamento, um indicativo da falta de transparência ou, possivelmente, da ausência de planos concretos em muitas delas. Entre as que se manifestaram, Curitiba foi a única a informar a existência de uma reserva financeira específica para situações de calamidade, um diferencial que pode ser crucial em momentos de crise.
A predominância de medidas como o monitoramento climático e a emissão de alertas, embora importantes, sugere uma abordagem reativa em vez de proativa. Especialistas apontam que a falta de planos específicos e integrados pode comprometer a eficácia das ações de saúde, especialmente quando a demanda por atendimento se eleva abruptamente e a infraestrutura existente é desafiada.
Os Múltiplos Impactos na Saúde Pública
Os efeitos do El Niño na saúde são vastos e preocupantes. A expectativa é de um aumento significativo de doenças respiratórias, devido às variações bruscas de temperatura e à poluição do ar em períodos de seca. As arboviroses, como dengue, zika e chikungunya, também tendem a se proliferar em decorrência do aumento das chuvas e da formação de focos de reprodução do mosquito Aedes aegypti.
O calor extremo, por sua vez, pode agravar doenças cardiovasculares, quadros alérgicos e outras condições crônicas, além de afetar o sistema nervoso. As inundações, como a que impactou o Rio Grande do Sul em 2024, elevam o risco de leptospirose, hepatite A e diarreias, especialmente em áreas com deficiência de saneamento básico. A preocupação se estende a pacientes crônicos e pessoas com transtornos mentais, que podem sofrer com o estresse térmico e o trauma de desastres, como o aumento de casos de AVC em hipertensos ou a elevação de suicídios em locais afetados por tragédias.
Além do aumento da procura por atendimento, desastres naturais frequentemente comprometem a própria capacidade de resposta das redes de saúde. Unidades podem ser danificadas, o deslocamento de profissionais e pacientes se torna difícil, e tratamentos contínuos são interrompidos, criando um ciclo vicioso de vulnerabilidade e sobrecarga.
Ações e Desafios para o Futuro
Diante desse cenário, o Ministério da Saúde tem se mobilizado para preparar estruturas itinerantes, como hospitais de campanha, para dar suporte a estados e municípios durante eventos climáticos extremos. Essa iniciativa visa mitigar os impactos imediatos e garantir o acesso a serviços de saúde em regiões afetadas. No entanto, a complexidade do problema exige mais do que respostas emergenciais.
É fundamental que as capitais e demais municípios desenvolvam planos de contingência abrangentes, que incluam não apenas o monitoramento e a emissão de alertas, mas também a alocação de recursos financeiros, a capacitação de equipes, a melhoria da infraestrutura de saneamento e a conscientização da população. A integração entre diferentes esferas de governo e a colaboração com instituições de pesquisa, como a Fiocruz, são essenciais para construir uma resiliência duradoura frente aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
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