Terras raras: Brasil emerge como peça-chave na corrida entre EUA e China

Terras raras: Brasil emerge como peça-chave na corrida entre EUA e China

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O Brasil está se consolidando como um ator estratégico no cenário global de minerais críticos, especialmente as terras raras, em meio à acirrada disputa tecnológica e geopolítica entre Estados Unidos e China. A avaliação foi feita pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que destacou a importância desses ativos para o país.

Durante um discurso na Exposibram, um dos maiores congressos anuais de mineração realizado em Belo Horizonte, o ministro revelou ter sido informado por membros da equipe de Donald Trump, em uma reunião na Casa Branca, que os Estados Unidos reconhecem ter “perdido a corrida dos minerais críticos para a China”. Essa declaração sublinha a urgência americana em buscar novas fontes e parcerias, colocando o Brasil em uma posição de destaque.

A corrida global por minerais críticos e a estratégia dos EUA

A demanda por terras raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de alta tecnologia, como eletrônicos avançados, veículos elétricos e equipamentos de defesa, tem impulsionado uma verdadeira corrida global. A China detém a maior parte da produção e do processamento desses minerais, conferindo-lhe uma vantagem estratégica significativa.

Segundo Alexandre Silveira, a conversa na Casa Branca, ocorrida durante a viagem do presidente Lula a Washington em maio, focou na eletrificação, separação de minerais e indústria bélica. Os americanos teriam admitido estar “correndo atrás do gigante asiático”, e o ministro argumentou que os EUA não teriam outra escolha senão trabalhar com o Brasil, dada a inviabilidade econômica de produzir terras raras em seu próprio território devido aos altos custos.

No entanto, Silveira ponderou que a China, com sua abundância e domínio tecnológico no processamento, talvez não tenha o mesmo interesse em investir na separação e no beneficiamento desses minerais em solo brasileiro. Essa dinâmica complexa ressalta o desafio do Brasil em atrair investimentos que não se limitem à extração, mas que abranjam toda a cadeia de valor.

Mina Serra Verde: um ativo estratégico em Goiás

A relevância do Brasil no setor de terras raras foi reforçada com o anúncio de um substancial investimento na mina Serra Verde, localizada em Goiás. Horas antes do discurso do ministro, o Departamento de Defesa americano divulgou um aporte de US$ 750 milhões (equivalente a R$ 3,8 bilhões) para a aquisição de carbonato misto de terras raras da empresa.

Com esse novo aporte, o pacote total de investimentos previstos para o projeto no centro-oeste brasileiro atinge a marca de US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 7,7 bilhões). Este montante inclui US$ 300 milhões em contratos de compra antecipada da Defense Logistics Agency e US$ 500 milhões em dívidas bancárias. O acordo de offtake, que garante a compra da produção, tem duração de quinze anos e estabelece um preço mínimo para minerais críticos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

A mina Serra Verde é a única em operação no Brasil e sua produção estava, até recentemente, comprometida com processadores chineses por meio de contratos de dez anos. Esses acordos foram renegociados em dezembro para serem encerrados ainda em 2026. O ativo, contudo, foi adquirido pela USA Rare Earth por aproximadamente US$ 2,8 bilhões, em um processo que atualmente é contestado no Supremo Tribunal Federal pela Rede Sustentabilidade.

Desafios e a busca por agregação de valor

A transição da Serra Verde de contratos chineses para um proprietário americano e um acordo de longo prazo com os EUA representa uma mudança significativa. Embora garanta a comercialização da produção, o Brasil ainda enfrenta o desafio de não agregar valor ao minério em seu território. A mina continuará a entregar um produto intermediário, enquanto a etapa de separação e processamento, que concentra a maior parte do valor, permanece fora do país.

Essa situação levanta questões sobre a postura de “equidistância” que o governo brasileiro tem defendido em suas relações internacionais. A decisão sobre onde o valor é agregado, ao ser tomada fora de Brasília, pode estreitar o espaço para uma política externa mais independente no que tange a esses recursos estratégicos. O Brasil, rico em recursos naturais, busca há décadas superar o papel de mero exportador de commodities, mas a complexidade da cadeia de terras raras e a concentração tecnológica em poucos países dificultam esse avanço.

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