O Brasil dará um passo inédito na saúde pública ao iniciar o rastreamento de pacientes com diabetes tipo 5, uma condição ainda pouco conhecida globalmente e que representa um desafio significativo para o diagnóstico e tratamento. A iniciativa, confirmada pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) em um congresso realizado no Rio de Janeiro nesta quarta-feira, 26 de agosto de 2026, tem como foco inicial as regiões Norte e Nordeste do país, áreas que concentram um grande número de pessoas em situação de insegurança alimentar e desnutrição.
A decisão de focar nessas regiões não é aleatória. O diabetes tipo 5 está intrinsecamente ligado a problemas nutricionais e tem sido frequentemente confundido com o diabetes tipo 1, o que pode levar a tratamentos inadequados e riscos graves para os pacientes. Especialistas da SBD alertam para a possibilidade de um número considerável de indivíduos no Brasil estar recebendo doses de insulina muito acima do necessário, devido a um diagnóstico incorreto.
Desvendando o Diabetes Tipo 5 e suas Peculiaridades
Embora tenha sido identificado pela primeira vez na década de 1950, o diabetes tipo 5 permaneceu à margem das discussões médicas por muitos anos. Somente em 2025, após uma reunião de especialistas na Índia, a condição voltou a ganhar destaque, culminando na decisão unânime de classificá-lo como um tipo distinto da doença.
Segundo Hermelinda Pedrosa, vice-presidente da Federação Internacional de Diabetes (IDF) e membro da SBD, o diabetes tipo 5 apresenta características muito específicas que o diferenciam dos demais tipos catalogados. “Convencionou-se de forma unânime chamar esse diabetes de tipo 5 porque ele é diferente de todos os demais catalogados até hoje: ocorre em pessoas muito magras, comumente abaixo de 30 anos e que vão precisar de uma reposição menor de insulina”, explica a médica.
Essa descrição contrasta diretamente com o perfil do diabetes tipo 2, o mais prevalente globalmente, que geralmente está associado à resistência à insulina desenvolvida ao longo da vida e a comorbidades como a obesidade. No caso do tipo 5, a pessoa não desenvolve resistência à insulina e não apresenta cetoacidose, uma emergência metabólica grave causada pela falta de insulina. A raiz do problema, neste caso, reside em uma deficiência nas células produtoras de hormônio, diretamente resultante da carência nutricional.
Os Riscos da Confusão Diagnóstica e o Tratamento Inadequado
A similaridade de alguns sintomas e o perfil de idade e peso dos pacientes com diabetes tipo 5 frequentemente levam a um diagnóstico equivocado de diabetes tipo 1. No entanto, as consequências de um tratamento incorreto podem ser severas. Um paciente com diabetes tipo 5 que recebe doses de insulina destinadas a um tipo 1 pode ser exposto a quantidades excessivas do hormônio.
A aplicação de insulina em doses maiores do que o corpo realmente necessita pode desencadear episódios de hipoglicemia, uma condição perigosa onde os níveis de glicose no sangue caem drasticamente. A insulina atua fazendo com que as células absorvam glicose e reduzindo a liberação de açúcar pelo fígado. Em cenários de hipoglicemia grave, os pacientes podem experimentar confusão mental, convulsões, perda de consciência, coma e, em casos extremos, até mesmo a morte. Este risco é particularmente elevado quando a administração de insulina não corresponde à real necessidade de reposição hormonal do organismo.
Perspectivas de Remissão e o Impacto da Iniciativa Brasileira
As evidências sobre a remissão do diabetes tipo 5 ainda são limitadas, conforme apontado por Hermelinda Pedrosa. Contudo, a combinação de uma aplicação ajustada de insulina com a correção da alimentação do paciente pode ser fundamental para restabelecer o controle glicêmico. A iniciativa brasileira de rastreamento é, portanto, um passo crucial para identificar corretamente esses pacientes e oferecer-lhes o tratamento adequado, evitando os perigos da superdosagem de insulina e melhorando sua qualidade de vida.
Este programa pioneiro não apenas visa aprimorar o diagnóstico e tratamento de uma condição subestimada, mas também lança luz sobre a profunda interconexão entre saúde, nutrição e condições socioeconômicas. Ao focar nas regiões mais vulneráveis, o Brasil se posiciona na vanguarda da abordagem de um problema de saúde pública com implicações humanitárias significativas.
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