Reprodução/TV Folha

Maria Paula Curado e Marcos Lisboa debatem câncer, humanização e dados no ‘Desenquadrando’

Saúde

Bogotá (Colômbia) – A complexidade do diagnóstico e tratamento do câncer, a importância da epidemiologia e a necessidade urgente de humanizar a relação médico-paciente foram os temas centrais da entrevista concedida pela renomada pesquisadora Maria Paula Curado ao economista e colunista da Folha, Marcos Lisboa. A conversa, que integra o terceiro episódio do programa Desenquadrando, oferece uma visão aprofundada sobre os desafios e avanços na luta contra a doença, destacando a relevância dos dados e da escuta ativa no cuidado com a saúde.

O programa Desenquadrando é um especial de oito episódios da TV Folha, disponível no YouTube, que aborda temas de grande impacto na economia brasileira. A participação de Curado, uma das maiores referências em epidemiologia do câncer no país, trouxe uma perspectiva essencial sobre como a saúde pública e a gestão de dados se entrelaçam com o desenvolvimento social e econômico.

A Trajetória da Pesquisadora e a Virada para a Epidemiologia

Maria Paula Curado, que hoje chefia a área de epidemiologia e estatística em câncer do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo, e leciona na Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Faculdade de Saúde Pública da USP, compartilhou sua jornada profissional. Nos anos 1980, após especializar-se em cirurgias de câncer de cabeça e pescoço e retornar a Goiânia, ela se deparou com uma realidade frustrante: muitas das operações que realizava não garantiam a cura definitiva dos pacientes.

“Passava dez horas fazendo cirurgia e, em dois, três meses, recidivava [voltava] tudo”, relatou a especialista. Essa experiência a impulsionou a buscar respostas além do centro cirúrgico, levando-a a desenvolver uma base de dados local para compreender a incidência de câncer na capital goiana. Foi esse o ponto de virada para sua dedicação à epidemiologia, área na qual já atuou à frente da epidemiologia descritiva da IARC (Agência Internacional para Pesquisa em Câncer), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Panorama do Câncer no Brasil e no Mundo: Incidência e Prevenção

Durante a entrevista, Lisboa e Curado discutiram a preocupante alta incidência de câncer de boca no Brasil, um reflexo de fatores socioeconômicos e hábitos de vida. Em contrapartida, abordaram a diminuição global dos casos de câncer gástrico, embora a mortalidade associada a essa doença ainda seja consideravelmente alta, evidenciando a necessidade de diagnósticos precoces e tratamentos eficazes.

A pesquisadora enfatizou a importância da prevenção, reafirmando que as medidas mais eficazes são as mais básicas. “É o feijão com arroz mesmo. E socializar, ter amigos”, disse ela, destacando a relevância de uma vida saudável, alimentação equilibrada e prática regular de exercícios físicos. A comunicação clara sobre as exposições ao risco é fundamental para que a população possa adotar hábitos protetores e reduzir a probabilidade de desenvolver a doença.

A Humanização do Tratamento e a Voz do Paciente

Um dos pontos mais sensíveis da conversa foi a crítica de Curado à forma como, muitas vezes, o paciente é tratado no ambiente médico. Após vivenciar um câncer e se ver na posição de paciente, ela percebeu a falta de escuta e a postura “ditatorial” de alguns profissionais de saúde. “Uma das coisas que me chamou muito a atenção é que o médico às vezes não pergunta ‘como é que você está?’”, observou.

A pesquisadora atribui essa postura a um modelo de formação acadêmica que, historicamente, posicionou o médico como uma figura quase onipotente. “O médico é Deus, o paciente vai ser salvo por aquele Deus que sabe tudo. Tem que parar de ser subserviente, tem que ser uma relação menos ditatorial”, defendeu Curado. Ela ressaltou que o paciente precisa ter escolhas e ser ativamente envolvido nas decisões sobre seu tratamento, e que explicar os pontos relacionados à doença não é tão difícil quanto parece, exigindo apenas empatia e comunicação efetiva.

Desafios e Potencial das Bases de Dados Médicas Nacionais

A entrevista também abordou a situação das bases de dados médicas no Brasil. Maria Paula Curado elogiou a existência e a qualidade de algumas delas, como os Registros Hospitalares de Câncer (RHCs), que são obrigatórios para hospitais públicos e representam uma ferramenta crucial para o monitoramento da doença. No entanto, a pesquisadora também apontou problemas e a necessidade de melhorias contínuas para que esses dados possam ser plenamente utilizados na formulação de políticas públicas e no avanço da pesquisa.

A otimização desses registros é vital para compreender padrões de incidência, avaliar a eficácia de tratamentos e direcionar recursos de forma mais eficiente, fortalecendo a capacidade do país de enfrentar o câncer de maneira mais estratégica e humanizada.

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