30.jun.26/Xinhua

China e o futebol: bilionários investimentos e sonhos de Copa esbarram na realidade

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A paixão chinesa pelo futebol é inegável, como demonstram os milhões de torcedores que acompanham fervorosamente a Copa do Mundo, inclusive com grande entusiasmo pela seleção brasileira. No entanto, essa efervescência contrasta drasticamente com o desempenho da própria China nos gramados internacionais. A pergunta “por que o país mais populoso do planeta e uma potência olímpica joga tão mal o esporte mais popular do mundo?” ecoa há anos, e a resposta reside em uma complexa teia de fatores que vão desde a gestão financeira até questões culturais e sociais.

A trajetória da seleção masculina chinesa na Copa do Mundo é um espelho dessa dificuldade. Com apenas uma participação na história, em 2002, o time foi eliminado na primeira fase com três derrotas e nenhum gol marcado, incluindo um revés de 4 a 0 para o Brasil. Atualmente, a China ocupa a 90ª posição no ranking da Fifa, uma colocação que a deixa logo acima de nações com populações e recursos incomparavelmente menores, como Curaçao, uma ilha com pouco mais de 150 mil habitantes.

A Ambição de uma Potência e a Realidade dos Gramados

A aspiração de se tornar uma força no futebol não é recente para a China. Em 2011, o presidente Xi Jinping, um torcedor declarado do esporte, manifestou publicamente três grandes desejos: ver a China na Copa do Mundo, sediar o torneio e, finalmente, vencê-lo. O governo chinês, em um ambicioso plano, prometeu transformar o país em uma potência do futebol até 2050. Essa meta, no entanto, parece cada vez mais distante diante dos desafios persistentes.

Apesar do entusiasmo e do apoio estatal, a realidade do futebol masculino chinês tem sido de estagnação. Enquanto outras nações asiáticas, como Coreia do Sul e Japão, se consolidaram como presenças constantes em Copas do Mundo e exportam talentos para as ligas europeias, a China ainda busca uma identidade e um caminho para o sucesso duradouro. O contraste é ainda mais evidente quando se observa o desempenho da seleção feminina, que já alcançou uma final de Copa do Mundo e mantém um nível de competitividade internacional.

A Farra dos Bilhões e o Desvio de Propósito

A falta de dinheiro nunca foi o problema central para o futebol na China. Pelo contrário, a partir de 2015, o esporte presenciou uma verdadeira farra de gastos. Clubes da Superliga Chinesa investiram bilhões de dólares, atraindo estrelas internacionais como Oscar, Hulk, Carlos Tévez e Alex Teixeira, além de técnicos renomados como Marcello Lippi e Luiz Felipe Scolari. A ideia era impulsionar a liga e, consequentemente, a seleção nacional.

Contudo, a forma como esse dinheiro foi direcionado revelou-se um dos maiores entraves. Muitas das incorporadoras que bancavam os clubes buscavam, na verdade, acesso político, como empréstimos facilitados e terrenos. A formação de atletas locais foi relegada a segundo plano. Quando o setor imobiliário chinês entrou em crise, o fluxo de dinheiro secou, levando dezenas de clubes à falência. O investimento recorde trouxe estrelas maduras do exterior, mas falhou em criar uma geração de jogadores chineses capazes de sustentar a seleção a longo prazo.

A Sombra da Corrupção e o Sistema Viciado

Outro fator crucial que minou o desenvolvimento do futebol chinês foi a corrupção sistêmica. Uma campanha de Pequim para combater a corrupção no esporte expôs um rombo profundo e uma manipulação generalizada de resultados. As investigações revelaram um esquema onde convocações para a seleção e promoções de jogadores eram vendidas, comprometendo a meritocracia e a qualidade dos atletas selecionados.

Casos emblemáticos vieram à tona, chocando a opinião pública. O ex-técnico da seleção chinesa, Li Tie, foi condenado a 20 anos de prisão por suborno, admitindo ter pago para assumir o cargo. Chen Xuyuan, ex-presidente da federação de futebol do país, recebeu prisão perpétua. Um sistema onde a integridade esportiva era constantemente violada dificilmente poderia selecionar e desenvolver os melhores talentos, criando um ambiente de desconfiança e desmotivação.

Raízes Profundas: Pressão Social e a Base Fragilizada

A explicação mais convincente para a dificuldade do futebol na China reside na formação de base. A quantidade de jovens praticantes é pequena em comparação com a vasta população do país. Fatores sociais e culturais exercem uma pressão enorme sobre as crianças e suas famílias, afastando-as dos campos.

A intensa pressão escolar e o peso do gaokao, o vestibular chinês, são barreiras significativas. Além disso, a política do filho único, que vigorou por décadas, fez com que muitos pais hesitassem em arriscar o futuro de seu único filho em uma carreira incerta como a de jogador de futebol. A falta de gramados adequados, de escolinhas de futebol acessíveis e, principalmente, de uma cultura de rua que fomente o esporte, como a que existe no Brasil, contribui para essa base fragilizada. A pandemia de Covid-19, com sua política de “Covid zero” entre 2020 e 2022, agravou o cenário, esvaziando estádios, isolando elencos e afastando treinadores estrangeiros, aprofundando um buraco já existente.

O Limite do Planejamento Estatal no Esporte

O caso chinês sugere um limite claro para o planejamento estatal no esporte de alto nível. Enquanto Pequim demonstrou uma capacidade impressionante de erguer trens-bala e cidades inteiras em poucas décadas, o futebol de elite parece resistir a metas fixadas por decreto. O esporte, em sua essência, nasce de baixo para cima, em milhares de campos improvisados, nas ruas e nas comunidades, onde a paixão e o talento se desenvolvem organicamente.

A China, que se destaca na fabricação de robôs e em inovações tecnológicas, ainda não descobriu como “fabricar” atacantes, zagueiros e meio-campistas de alto nível. O tempo necessário para a base amadurecer, para a cultura do futebol se enraizar e para os talentos emergirem de forma natural não pode ser comprado ou acelerado por investimentos bilionários ou decretos governamentais. É um processo orgânico que exige paciência, infraestrutura adequada e, acima de tudo, um ambiente livre de corrupção e pressões excessivas.

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