A Covid-19, doença causada pelo vírus Sars-CoV-2, deixou um rastro de desafios para a saúde pública global. Além da fase aguda, milhões de pessoas enfrentam a chamada Covid longa, uma condição caracterizada pela persistência de sintomas por semanas ou meses após a infecção inicial. Entre as manifestações mais comuns e debilitantes, a dor crônica se destaca, afetando a qualidade de vida de uma parcela significativa dos pacientes.
Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) lança luz sobre os mecanismos por trás dessa dor persistente. A pesquisa, que envolveu experimentos com camundongos, sugere que a proteína spike do Sars-CoV-2 pode ser um dos gatilhos para a manutenção da sensibilidade à dor, mesmo após a resolução da inflamação inicial. Os resultados foram publicados na revista Brain, Behavior, and Immunity e contaram com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e outras agências de fomento, além de colaborações com instituições como a Univali, UFRB, Fiocruz e King’s College de Londres.
A persistência da dor após a infecção aguda
A experiência pessoal da professora Giselle Passos, coautora do estudo e pesquisadora da Faculdade de Farmácia da UFRJ, foi um dos impulsos para a investigação. Após contrair Covid-19 durante a segunda onda no Brasil, ela continuou a sentir dores musculares e no nervo ciático, sintomas que não apresentava antes da doença. Essa observação levantou uma questão crucial para a comunidade científica: por que a dor persiste em alguns indivíduos mesmo após a recuperação da fase aguda da infecção?
Dados epidemiológicos corroboram a relevância da questão. Estima-se que entre 15% e 20% dos pacientes com Covid-19 apresentem dores musculares durante a fase aguda. No entanto, o mais preocupante é que até 40% dessas pessoas podem continuar com dores persistentes por meses, configurando um dos principais desafios da Covid longa. Compreender os mecanismos subjacentes é fundamental para o desenvolvimento de tratamentos eficazes.
Mecanismos da proteína spike em foco na dor persistente
A equipe de pesquisa já havia identificado que a proteína spike, componente essencial do Sars-CoV-2, era capaz de induzir déficits cognitivos em animais, semelhantes aos observados em pacientes com Covid longa. Essa descoberta direcionou a atenção para a possibilidade de a spike também estar envolvida na dor crônica. Para testar essa hipótese, os cientistas administraram a proteína isolada em uma das patas de camundongos.
Os experimentos revelaram que, embora a inflamação e o inchaço no local da administração desaparecessem em cerca de uma semana, a sensibilidade à dor permanecia. Os animais desenvolveram uma hipersensibilidade a estímulos mecânicos e térmicos, que se manifestou inclusive na pata oposta àquela que recebeu a proteína. Essa discrepância entre a duração da inflamação e a persistência da dor sugere que a spike desencadeia alterações mais duradouras no sistema nervoso, indo além da resposta inflamatória inicial.
Diferenças de gênero e o papel da resposta imune
Um achado notável da pesquisa foi a observação de diferenças entre machos e fêmeas. A resposta dolorosa inicial foi mais evidente nas fêmeas, um dado que se alinha com a maior prevalência de condições dolorosas crônicas em mulheres e com evidências crescentes de distinções entre os sexos biológicos nos mecanismos imunes e neuroimunes relacionados à dor. Contudo, a dor persistente e o inchaço se desenvolveram em ambos os sexos posteriormente.
A investigação aprofundou-se nos componentes da resposta imunológica. Foi identificada a participação crucial da proteína TLR4, que reconhece sinais de infecções. Em camundongos sem essa proteína, a spike não provocou inflamação nem hipersensibilidade dolorosa. Além disso, células de defesa como fagócitos e células T, bem como citocinas como o interferon-gama (IFN-γ), mostraram-se essenciais na manutenção da resposta inflamatória e da hipersensibilidade.
O estudo aponta para uma cadeia de eventos: a proteína spike inicia uma resposta imunológica localizada, que ativa células de defesa e citocinas. Com o tempo, essa resposta se propaga para a medula espinhal, onde alterações inflamatórias persistentes contribuem para a manutenção da dor. Para mais informações sobre a Covid longa e seus impactos, acesse a Fiocruz.
Implicações e cautelas na interpretação dos achados
Os resultados desta pesquisa representam um avanço significativo na compreensão da Covid longa. Ao demonstrar que a proteína spike, por si só, é capaz de induzir e manter a dor persistente, o estudo abre novas avenidas para o desenvolvimento de terapias direcionadas. Contudo, os próprios pesquisadores ressaltam a necessidade de cautela na interpretação dos achados.
É fundamental lembrar que os experimentos foram realizados com a proteína spike isolada, administrada em um modelo animal, e não com a infecção completa pelo vírus Sars-CoV-2. Isso significa que, embora a spike seja um fator importante, ela pode não ser o único mecanismo responsável pela dor em todas as pessoas que desenvolveram Covid longa. A complexidade da doença exige investigações contínuas e abordagens multifacetadas para desvendar todos os seus mistérios.
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