A emergência silenciosa que afeta territórios tradicionais
As mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção de riscos futuros para se tornarem uma realidade que altera, de forma drástica, a saúde física e psicológica de populações ao redor do globo. Relatórios recentes da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Lancet Countdown on Health and Climate Change indicam que eventos extremos — como secas severas, queimadas intensas e enchentes — estão diretamente ligados ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico agudo.
No Brasil, esse cenário ganha contornos dramáticos em comunidades indígenas e quilombolas, cuja sobrevivência é intrinsecamente ligada à preservação de seus territórios. Para esses grupos, a terra não é apenas um recurso material, mas a base de sua identidade, espiritualidade e sistema de cura. Quando o ecossistema entra em colapso, o impacto emocional é imediato e profundo.
O relato da escassez no território Kumaruara
No Território Indígena Kumaruara, localizado no Baixo Tapajós, a vivência recente de uma seca histórica ilustra o trauma do deslocamento forçado. Tainan Kumaruara, de 27 anos, descreve o momento em que a falta de água nos igarapés obrigou famílias a abandonarem seus lares. A escassez rompe o ciclo de subsistência, pesca e roça, gerando um estado de incerteza constante.
Lideranças locais, como Arlete Kumaruara, de 60 anos, apontam que o sofrimento psicológico atinge de maneira desproporcional mulheres e crianças. A perda da abundância natural transforma o ambiente de acolhimento em um cenário de privação, onde a saúde mental é negligenciada em meio à luta pela sobrevivência básica.
Conexão espiritual e a perda da capacidade de cura
Para os povos originários, a floresta é um sistema de cuidado. Alain Kumaruara, de 29 anos, ressalta que a destruição ambiental fragiliza a conexão com os encantados, elementos fundamentais na prática de cura realizada pelos pajés. Sem a floresta em pé, a própria estrutura de suporte emocional e espiritual da comunidade é comprometida.
O Pajé Naldinho, de 31 anos, reforça que o impacto é sistêmico, afetando plantas, animais e pessoas. A percepção de que a natureza está morrendo retira, para muitos, a própria razão de resistir. Esse sentimento de perda coletiva também é compartilhado por comunidades quilombolas no Pará, onde o avanço do desmatamento e a restrição ao acesso a áreas tradicionais de cultivo e coleta de ervas medicinais geram medo e ansiedade crônica.
Desafios para políticas públicas e integração
Apesar da gravidade, a saúde mental ainda é um tema invisível nas políticas globais de adaptação climática. No Brasil, iniciativas como o projeto desenvolvido pela United for Global Mental Health em parceria com o Vertentes – Ecossistema de Saúde Mental buscam mudar esse paradigma. O objetivo é mapear lacunas e integrar o cuidado psicológico às estratégias de enfrentamento à crise do clima.
O desafio central é transformar o reconhecimento do problema em políticas públicas efetivas. Isso exige fortalecer o sistema de saúde nos territórios vulnerabilizados e, acima de tudo, valorizar os saberes tradicionais. Como demonstram as comunidades amazônicas, não há adaptação possível sem a proteção integral dos territórios e o respeito aos modos de vida coletivos.
O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos dessa crise e o impacto das políticas de adaptação nas comunidades tradicionais. Continue conosco para mais análises sobre os desafios socioambientais e os avanços na saúde pública brasileira.
